sábado, 24 de março de 2018

A impressionante Agulha do Diabo

Por Leandro do Carmo

Agulha do Diabo

Escalada na Agulha do Diabo

Data: 23/09/2017
Participantes: Leandro do Carmo, Marcelo Correa, Ary Carlos, Blanco Pinheiro e Guilherme Gregory

Dicas para escalar a Agulha do Diabo

É uma atividade pesada. Só de caminhada de aproximação, leva-se, em torno de 4 a 5 horas. A caminhada após o Mirante do Inferno é a mais crítica e costuma ficar bem úmido, dificultando bastante, por isso, avalie caso esteja em período chuvoso. Muita gente opta por acampar no Paquequer, numa pequena área antes do Mirante do Inferno (mas deve-se pedir autorização com o Parque), para sair bem cedo no dia seguinte. A escalada em si consiste em lances de entalamento e chaminés. O lance final é feito em cabo de aço. No cume, o espaço é limitado e cabem poucas pessoas. Não é muito comum encontrar grandes grupos escalando, mas há possibilidade. Se for fazer em um dia, comece bem cedo e tenha certeza de que voltará parte do caminho durante a noite.

Como chegar à Agulha do Diabo

Na trilha para a Pedra do Sino, logo após a Cota 2000, há uma saída para a esquerda. Essa trilha é conhecida como “Caminho das Orquídeas”. Siga descendo e vire à direita na bifurcação. Seguirá por um longo caminho até chegar ao acampamento Paquequer, um pequeno descampado, onde cabem poucas barracas. Dali, cruzará o rio Paquequer e subirá em direção ao Mirante do Inferno. Pegar uma saída à esquerda, que te levará ao colo entre o Mirante do Inferno e o São João. Descerá à direita, até a base da Agulha e subirá um trecho bem úmido.

Relato da Escalada na Agulha do Diabo

Agulha do DiaboEnfim havia chegado o grande dia. Há alguns anos atrás, quando fiz o curso básico de escalada, ouvi alguém dizer sobre uma escalada na Agulha do Diabo. Como não conhecia, fui logo pesquisar. Na primeira pesquisa, eis que surge uma foto simplesmente fantástica! Numa primeira análise, parecia algo impossível... Mas era naquele momento. Porém, algo me dizia que um dia estaria lá...

O tempo foi passando e foram algumas tentativas... Ora o tempo não ajudava, ora compromissos pessoais... Sempre tinha alguma coisa que me fazia adiar. Mas não desisti e nem desanimava, toda vez que passava pelo Parque Nacional da Serra dos Órgãos, me certificava de que ela estava lá a me esperar. E passou tanto tempo, que ficava até com um pouco de vergonha, quando o assunto Agulha do Diabo vinha a tona e eu falava que ainda não havia ido. Estava na hora de passar isso a limpo!

Eu, Ary Carlos, Marcelo Correa e seu filho, Lucas, havíamos marcado de escalar a Agulha dois meses atrás. Pensa naquela noite estrelada... E foi assim. Entramos no parque às 6 da manhã com um dia aberto e firme. Foi só passar da altura do antigo Abrigo 2 que as nuvens estavam lá estacionadas, trazendo uma chuvinha rala... Ainda chegamos ao início da descida do Caminho das Orquídeas na esperança do tempo abrir, mas nada... Havia parado na garganta o grito de gol.

Dessa vez tinha tudo pra dar certo. Estávamos num período forte de estiagem. Tudo muito seco. Apesar das condições difíceis para a vegetação e animais, estar seco, facilitaria a muito a caminhada de aproximação. Dessa vez, eu, Ary Carlos, Marcelo Correa, Guilherme Gregory e o Blanco Pinheiro nos organizamos para, enfim, escalar a tão sonhada Agulha do Diabo. Saímos as 4:30 da manhã de sábado. O Marcelo Correa nos esperava em Teresópolis. A viagem foi tranquila e com a estrada livre chegamos cedo em Teresópolis. Já havia gente na portaria, prenúncio de um dia cheio no PARNASO.  Acertamos tudo e seguimos para a Barragem.  Lá nos preparamos e tivemos que descer para deixar o carro estacionado mais embaixo.
Agulha do Diabo
Enfim começamos a caminhada. Eram 6:30 da manha e nossa previsão de chegada à base, seria por volta das 10:30. Começamos a subida e fomos num ritmo bom. Cruzamos  o local do antigo Abrigo 1 e passamos pela Cachoeira do Véu da Noiva completamente seca. Isso mesmo, completamente seca. Ainda não havia visto algo parecido. Seguimos e mais acima, na Cachoeira do Papel, mais uma decepção, só existia um pequeno filete de água, que mal dava para encher as garrafas. Tratei logo de encher minha garrafa extra, não sabia se o Paquequer estaria com água.

Continuamos a subida e usamos a subida pela base do Paredão Paraguaio, na Pedra da Cruz para ganharmos um pouco mais tempo, apesar da subida mais forte. Quando chegamos na laje, já na descida para o Caminho das Orquídeas, onde havíamos voltado da última vez, nos deparamos com uma vista fantástica. O dia estava completamente limpo. Uma leve brisa balançava as folhas das árvores. Pequenas nuvens contrastavam com o céu azul. Um espetáculo.

Descemos com o piso seco e foi mais fácil que das últimas vezes que havia ido ao local. Descemos o grotão e logo chegamos no Abrigo Paquequer. Um pequeno local de acampamento muito utilizado para quem faz a Agulha do Diabo em dois dias. Muitos preferem pernoitar no local e acordar cedo para escalar. Existe o incômodo de subir com mais peso, mas cada um define sua estratégia. Ali a água era escassa, mas em maior quantidade. Enchemos novamente nossas garrafas. E seguimos subindo em direção ao Mirante do Inferno. No caminho pegamos o caminho da esquerda, em direção ao São João. Descemos um terreno instável e até que chegamos ao colo entre o Mirante e o São João. Dali, descemos à direita em direção ao Vale da Geladeira.

Agulha do Diabo
É uma descida técnica e difícil, apesar de seca. Muitas pedras soltas. Havia muito limo seco nas pedras. Fiquei imaginando como seria o local molhado... Ficou apenas na imaginação. Dali, a vista da Agulha era fantástica. Estávamos a uma distância razoável o que nos permitia ver com detalhes, alguns dos lances clássicos da escalada, como o Cavalinho. E continuamos a descida. Em um determinado ponto começamos a subir em direção à Agulha. O caminho era mais difícil. Mais uma vez agradeci a seca... Fomos ganhando altitude e chegamos a uma gruta, onde entramos e fizemos um lance de chaminé até chegar ao alto da pedra, na volta, faríamos um rapel num grampo que havia ali no alto. Dali chegamos a um pequeno largo e com mais uma subida, estávamos na base da escalada!
Fizemos um lanche e nos preparamos para a escalada. Deixamos nossas mochilas e levamos somente o necessário. No casa do Agulha, a mochila iria atrapalhar os vários lances de entalamento e chaminés estreitas. Dividimos em duas cordadas. Eu e o Macelo fomos na frente e o Blanco, Ary e Guilherme por último.

O Marcelo guiou a primeira enfiada. Fui observando o movimentos, pelo menos os primeiros, logo acima, já se perde o contato visual. Assim que ele chegou à parada, foi hora de seguir. O primeiro lance olhando de baixo parece simples, mas as fendas são cegas e é preciso posicionar bem o pé esquerdo para sair bem e dominar o lance. Logo acima vem um bloco, um pouco mais fácil que o de baixo.  Seguimos mais uns trepa pedras até pegar uma diagonal para cima. Primeira parte finalizada!

Chegou minha vez de guiar. Sai da primeira parada e a segunda enfiada começa com um lance de entalamento. Subi um pouco e protegi com um camalot, melhorando o psicológico do trecho. Tentei uma vez, mas não encaixei e na segunda tentativa, me posicionei melhor, usando as pernas e o lado do corpo até subir mais um pouco e chegar próximo ao grampo, quando pude passar a costura e ficar protegido. Um lance bem bacana. Daí pegar uma horizontal para a esquerda numa fendinha, seguindo na ponta dos pés. Uma boa agarra acima deixou o lance bem tranquilo. Depois foi seguir uma pequena e delicada trilha até a parada dupla utilizada para o rapel, onde montei a segunda parada. O Marcelo veio logo em seguida. Dali já pude ver a outra cordada chegando. Seguimos todos mais ou menos juntos.

Agulha do Diabo
Subi uma pequena trilha, num caminho já bem marcado. Alguns trechos estão bem instáveis e é preciso atenção. Passei por baixo de uns grandes blocos até a base de mais uma chaminé. Dali dava para ver o quanto vertical era o trecho. Já estávamos bem próximos do nosso destino. O Marcelo guiou esse lance. Segui até o final da chaminé e subi até um buraco, onde entrei até o lado de fora, passando com um pouco de dificuldade. Daí foi subir mais um pouco e ir andando pelas pedras suspensas até uma grande pedra entalada, bem acima de onde entramos. Deu um pouco de arrasto na corda. Chegou até a prender em alguns momentos. Em cima dessa grande pedra, dá para ver o grampo um pouco mais alto. Na técnica de oposição, dominei o lance, até chegar ao grampo onde o Marcelo já havia deixado uma fita, fazendo um artificial até um confortável platô.

Agulha do Diabo
Nesse ponto, podíamos ver toda a extensão da Chaminé da Unha. Estávamos de frente para o São João e podíamos ver um grupo lá no alto. Ali, a vista surpreendia... Enquanto a cordada de trás subia, fui me preparando para o famoso lance do Cavalinho. Já estava pronto e o Marcelo me passou algumas dicas. Dei uma olhada antes e respirei fundo e subi um pouco depois do grampo afim de pode encaixar primeiro o ombro para poder me equilibrar. Depois, foi chegar um pouco para frente e colocar a perna esquerda. Alguns escaladores até passam em pé, mas preferi fazer o lance da maneira mais comum e na qual achei mais fácil... Segui devagar, sempre me apoiando bem. Olhei para baixo e vi o quanto estava alto. Tratei logo de olhar para frente e me concentrar, faltavam apenas alguns metros para completar. O Marcelo me chamou e bateu uma foto. Segui até a ponta e optei por entrar completamente na fenda. Como sou magrinho, não tive dificuldades. Saí do lance entrei numa estreitíssima chaminé. Era tão estreita que foi fácil dar segurança dali para o Marcelo.

Assim que ele completou o lance, segui para o outro lado, já me preparando psicologicamente para a Chaminé da Unha. Vou aqui descrever um pouco esse trecho. Trata-se de uma gigantesca laca, que está equilibrada em uma das faces, já próxima ao cume, formando uma grande e regular chaminé.  Diz a lenda que ela até balança! Brincadeiras a parte, não seria eu o responsável por descobrir a verdade!!! Foi hora de me preparar para guiar mais esse trecho, talvez o melhor da escada. Talvez não, com certeza.

Agulha do DiaboDe onde estava, podia ver um grampo muito alto. Pensei que fosse o primeiro, mas chegando um pouco mais para frente, pude ver que era o segundo, mas mesmo assim, estava alto. As proteções são aquelas padrão chaminé que conhecemos bem: um grampo lá longe e outro muito lá longe...  Sem muito enrolar e aproveitar o corpo quente, toquei para cima. Como movimentos sincronizados, fui ganhando altura e mais altura. Já não tinha como voltar atrás... A parede é bem aderente e regular. Comecei o lance de frente para o São João, seguindo a dica do Marcelo. Protegi no primeiro grampo e segui para um degrau, onde pude descansar um pouco. Consegui fazer algumas fotos e nesse ponto, virei de costa para o São João, visto que unha fica convexa ao seu final, isso facilitaria terminar o lance.

Agulha do Diabo
Segui subindo e protegi num grande, antigo e torto grampo. Fui ganhando altura e olhando para cima, a alça do cabo de aço já se aproximava. Faltavam apenas alguns metros...  Com aquela vontade de chegar rápido, parecia que o cabo se distanciava. Concentrei e parei de me preocupar. Quando olhei novamente, ele já estava na altura da minha cabeça. Apoiei com mão no cabo e subi mais um pouco até passar para o topo da unha. Ali foi descansar um pouco e apreciar a fantástica vista. Descansei um pouco e dei segurança ao Marcelo que rapidamente chegou. Estar ali é algo que dificilmente conseguirei descrever...

Bom, faltava o último trecho. O lance do cabo não tem muito mistério, mas todo cuidado é pouco. Fui subindo e passei por um trecho bem vertical, até que foi perdendo inclinação. Pronto, estava no cume. Realizava um sonho. Sozinho por um instante, com aquele dia maravilhoso, foi difícil conter as lágrimas. Uma mistura de sentimentos entre realização, alegria, alívio, etc... Rapidamente olhei em volta e me posicionei no centro do pequeno cume e agradeci a Deus por estar me proporcionando esse momento mágico. Poucos terão a oportunidade que tive. Por instante refiz todo o caminho que percorri até ali. Fechei os olhos e respirei fundo, me fazendo voltar a escalada, afinal de contas, tinha completado a metade do caminho.

Agulha do Diabo
Me prendi ao grampo que fica ao lado da caixa metálica onde se encontra o livro de cume e montei segurança para o Marcelo que subiu rapidamente. Quando ele chegou ainda falei: “Missão cumprida”. Ele me respondeu: “Ainda falta a volta”. Pois é, completamos apenas metade da missão! Enquanto a outra cordada não chegava, batemos várias fotos para registrar e tivemos a sorte de ter outros grupos no São João e Mirante do Inferno. Um moça que estava no Mirante do Inferno nos viu no cume e gritou: “De qual clube?” Eu respondi: “Niteroiense” .  Aos poucos todos foram chegando e conseguimos nos reunir no pequeno cume. O dia continuava perfeito.  Começamos a nos preparar para descer. Seguimos por dois rapeis até a base de um bonito e mais baixo cume, chamado de Agulha da Neblina. O Blanco escalou e eu me arrependi profundamente de não ter ido... Mas tudo bem, ficará para a próxima...

Descemos uma pequena trilha e fizemos mais um rapel até a base, onde havíamos deixado nossas mochilas. Fizemos um lanche e foi hora de pegar o longo caminho de volta até a barragem. Às 18:00, estávamos de volta a Trilha do Sino e as 20:00, chegávamos na Barragem.

Agora sim, poderia dizer: Missão cumprida!

Agulha do Diabo
Base da via

Agulha do Diabo
Lance do Cavalinho

Agulha do Diabo
Chaminé da Unha

Agulha do Diabo
Leandro do Carmo e Marcelo Correia no cume

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Leandro do Carmo escalando o lance final

Agulha do Diabo
No lance final

Agulha do Diabo
Ary chegando ao cume

Agulha do Diabo
Leandro, Ary e Marcelo

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Marcelo Correia (em pé) e Leandro do Carmo no cume

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da esquerda: Blanco, Ary, Marcelo, Leandro e Guilherme

Agulha do Diabo
Leandro e Marcelo no cume

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Escalada na Via K2 - Corcovado RJ

Por Leandro do Carmo

Data: 20/12/2017


Escalada na Via K2 - Corcovado RJ
Vista da base da via

Escalada na Via K2 - Corcovado RJ


Participantes: Leandro do Carmo, Blanco P. Blanco, Marcos Velhinho e Alexandre Xavier

Dicas para escalar a Via K2


Uma das clássicas do Rio de Janeiro, com diversas técnicas como fendas, diedros, agarras e aderências. É relativamente curta, com cinco enfiadas e um visual fantástico.

A primeira enfiada segue por um grande diedro protegido por proteções fixas. A segunda enfiada segue numa horizontal para a esquerda com agarras. A vista nesse ponto chegar a dar calafrios. Chega a uma parada dupla, antes do lance do “Crucifixo”, muitos param ali.  Existe a opção de fazer a K3, uma variante que segue o diedro da primeira enfiada, após a primeira dupla de grampos, graduada em 6ºsup e protegida em móvel, com cerca de 20 metros. A terceira enfiada é bem tranquila e segue até o platô antes do lance do “Palavrão”. Na quarta enfiada, saímos para o lance do “Plavrão”. O lance é relativamente tranquilo, mas bem exposto. Como não tem proteção, muitos acidentes já aconteceram no local.  Uma queda, leva o guia direto à base. Após o lance do “Palavrão”, segue-se numa diagonal para a esquerda, até entrar um grande laca e subir num lance meio exposto até um grampo logo acima, seguindo, novamente numa horizontal para a esquerda, até um confortável platô. A última enfiada é uma retinha, até a esquerda da estrutura de contenção, onde pegamos um pequena trilha até os pés do Cristo Redentor.

Levar pelo menos umas 7 a 8 costuras e peças ajudam a diminuir a exposição em alguns lances.
Há um estacionamento lá no alto, próximo ao centro de visitantes, mas pode acontecer de não ter mais vaga, pois é pequeno. Lembre-se que finais de semana costuma ficar muito cheio. Depois que o acesso ao Cristo fecha, as vans somem e fica tudo deserto. O melhor horário é na parte da tarde. A partir das 14h já tem sombra. Evite deixar coisas de valor no carro, principalmente se começar a escalar muito tarde e for descer a noite.

Como chegar à base da via K2

Subir a Estrada das Paineiras, até o ponto onde param as vans. Há um estacionamento no local, mas nem sempre há vaga. Dali pegar a estra que continua subindo até o Cristo e numa curva acentuada para a direita, pegar a trilha na margem esquerda, na cerca de cimento. Seguir contornando a parede até a base.

Relato da escalada na Via K2

Essa foi uma via que estava há anos para eu fazer. Cheguei a marcar diversas vezes, mas sempre acontecia alguma coisa que não podia ir. Mas dessa vez foi diferente. Estava de férias e topando qualquer coisa. Achar alguém para escalar no meio da semana não é uma das tarefas mais fáceis. O Blanco havia ido lá alguns dias antes e estava na pilha de voltar para mandar a variante K3. Quando ele fez o convite, logo topei. Se juntaram a nós o Velhinho e o Alexandre.

Escalada na Via K2 - Corcovado RJ
No caminho...
Marcamos de nos encontrar as 13:00 lá em cima, no ponto final das vans. O Velhinho passou na minha casa e de lá seguimos. O trânsito estava bom e rapidamente chegamos em Laranjeiras. Eu, nem o velhinho lembrávamos muito bem do caminho, mas fomos seguindo o aplicativo. Na subida, já em Cosme Velho, quase fomos literalmente parados por algumas pessoas que diziam não poder subir de carro, provavelmente querendo oferecer algum serviço de transporte alternativo. Só não sabiam que não éramos turistas. Primeira má impressão no, talvez, maior cartão postal do país...

Seguimos subindo até chegar à estação do trem do Corcovado. Para quem vai de carro, é o ponto final. Entramos num estacionamento e fomos recebidos por um guardador de carro que não era do Parque Nacional da Tijuca. Haviam algumas pessoas estranhas no local, mas nada de mais, principalmente pra gente que já conhece como funciona. Conversamos com ele e resolvemos deixar o carro ali mesmo. O Blanco avisou que iria atrasar um pouco, então fomos fazer um lanche.

Escalada na Via K2 - Corcovado RJDepois de um tempo, o Blanco chegou com o Alexandre e seguimos para o início da trilha. Fomos subindo pela estrada, até que chegamos ao ponto de uma curva bem acentuada para a direita. O início da trilha fica na margem esquerda da estrada, numa mureta de concreto. Entramos na trilha e fomos andando com parede do Corcovado bem a direita. A trilha foi bem tranquila e está bem marcada. Há alguns pequenos trechos com erosão, mas nada que atrapalhe muito.

Mais alguns minutos estávamos na base. O dia estava quente e aberto. Mas faz sombra nessa face e a via fica totalmente sem sol. Ali na base, nos arrumamos e dividimos a cordada. Não tínhamos costuras suficientes para duas cordadas. Por uma falha de comunicação, não sabíamos que faríamos duas cordadas. Dividimos o material que tínhamos e optamos por deixar as costuras nos grampos para a segunda cordada. Assim não teríamos problemas. A vista da base já impressionava, o prenúncio do que iria encontrar pela frente.

Escalada na Via K2 - Corcovado RJ
Primeira enfiada
Me preparei primeiro e saí para guiar a primeira enfiada, com a segurança do Blanco. O primeiro lance segue no domínio de uma grande laca, logo na base, costurando bem acima. Dali até o segundo grampo tem um lance bem delicado, onde temos que usar uma fissura para colocar o pé, até progredir e chegar ao segundo grampo. Uma queda ali, me levaria quase na base. Passei o lance e dei uma descansada até seguir subindo. Foi o aquecimento necessário. Ora em oposição, ora em agarras, fui subindo num bom ritmo. O diedro é bem bonito e são poucos os pontos onde não conseguimos encaixar a mão. Parei na primeira dupla de grampos, pois dali, o Blanco seguiria guiando na variante K3.  A vista era coisa de louco! Como já começamos a escalar bem alto, dá a impressão que fazemos um verdadeiro BigWall. O Alexandre veio subindo em seguida e teve um pouco de dificuldade para passar o lance inicial. Chegaram mais duas pessoas para escalar, mas acabaram desistindo, visto que, além do Alexandre, faltava ainda o Velhinho e o Blanco a subirem.

Depois que o Alexandre chegou na parada. O Velhinho começou a subir. Passou por mim e foi direto para a próxima parada dupla. Logo em seguida, subiu o Blanco e parou onde eu estava. Agora, o Alexandre seguiu para a parada onde o Velhinho montou a parada, logo abaixo do lance do “Crucifixo”.. Havíamos mudado de parceiros. O Blanco se preparou para guiar a variante e separou as peças, visto que esse trecho não possui grampos, devendo ser todo protegido em móvel. É a continuação natural do diedro inicial, um pouco mais difícil, com crux de 6ºsup.

Escalada na Via K2 - Corcovado RJ
Blanco na variante K3
O Blanco saiu da parada e subiu bem, antes de colocar o primeiro camalot. Tentou seguir, mas voltou
um pouco e melhorou a proteção. Seguiu subindo, colocou mais algumas peças e voltou para a parada. Descansou um pouco e daí, tocou direto até o grampo onde montou a parada. Era a minha vez de subir. Como estava com corda de cima, não me preocupei muito. Tinha a chance de arriscar mais. Segui subindo. Fui sacando as peças e progredindo lentamente. Até passar pelo crux. É preciso esticar a mão e encaixar na fissura, num bico quebrado. Olhando de baixo, nem parece, mas a pega é excelente. Tem que encaixar bem a mão, senão, ela pode escapar. Colocada a mão e certificado que estava firme, foi só correr para o abraço, ou melhor, para a parada.

Quando cheguei à parada, peguei mais algumas costuras e continuei a escalada. Saí da parada meio estranho e dei um passo abaixo, voltando a subir certo, pegando uma boa agarra na direita. Foi dominar e subir. Não deixa de olhar para baixo nem um minuto. A altura impressionava cada vez mais. A vista, fantástica como sempre, dava um choque de adrenalina que precisava. Continuei subindo, agora em lances mais fáceis e com boas agarras, até chegar ao platô, antes do lance do Palavrão. De lá, dei segurança para o Blanco. O Velhinho chegou logo em seguida e o Blanco veio dando uma ajuda para o Alexandre.

Escalada na Via K2 - Corcovado RJ
Leandro no lance do
"Palavrão"
O platô é bem confortável e nos acomodamos bem. Para o conhecido lance do “Palavrão”, peguei algumas peças com Blanco, pois é uma subida sem proteção fixa e uma queda ali, leva direto ao platô. Esse ponto já fez algumas vítimas... Foram alguns tornozelos e  pés quebrados e alguns resgates... Não queria fazer parte da estatística! Segui subindo e com boas agarras. Coloquei um camalot, não me recordo o número, e segui tranquilo. Passei o temido lance sem dificuldades... Segui numa horizontal para a esquerda, até chegar numa grande laca, onde coloquei mais uma peça e subi até o platô, abaixo da estrutura de contenção. Montei a parada. O Velhinho veio guiando e em seguida o Blanco e o Alexandre. Só depois de todos no platô que o Velhinho me disse que caíra antes de costurar a proteção colocada no “Palavrão”. Sorte que nada aconteceu.

Dali, subi a retinha final, num lance com pequenas agarras. Montei a parada numa árvore e esperei a galera subir. O lance final não é de graça... Quem vai achando que já terminou a via, se engana... O dia estava chegando ao fim e depois de todo o calor, um vento forte até ameaçou fazer um friozinho, mas ficou só na ameaça. Depois de todos na parada, seguimos subindo até o Cristo Redentor, que ainda não estava iluminado. É uma trilha curta que chega, literalmente aos seus pés. O local estava completamente vazio, salvo por algumas pessoas que estavam fazendo uma filmagem no local com um drone. O horário de visitação já havia acabado.

Escalada na Via K2 - Corcovado RJ
Chegada ao Cristo Redentor
Nunca havia ido ao Cristo. A vista é realmente fantástica. Impossível não se encantar com a Cidade Maravilhosa... Apesar de todos os problemas, olhando lá de cima parecia que estávamos num paraíso. Fomos apressados a descer pelo responsável do local. Descemos ainda equipados até o ponto onde param as vans. Achávamos que ganharíamos uma carona, mas ficamos na saudade. Assim que cruzamos o portão, paramos para nos desequipar e arrumar as mochilas. Descemos a estrada até pegarmos a linha do trem e descer reto até a estação, onde o carro estava estacionado. Daí, foi enfrentar o crux da escalada: o trânsito de volta para Niterói! Mas depois desse dia, nada podia mudar o meu humor. Missão cumprida!!!

Escalada na Via K2 - Corcovado RJ
Na nossa primeira parada

Escalada na Via K2 - Corcovado RJ
Leandro escalando o último lance

Escalada na Via K2 - Corcovado RJ
Na primeira parada

Escalada na Via K2 - Corcovado RJ
Finalizando a variante K3

Escalada na Via K2 - Corcovado RJ
Leandro acima e o Alexandre abaixo

Escalada na Via K2 - Corcovado RJ
No platô, já perto do final

Escalada na Via K2 - Corcovado RJ
Vista da via

Escalada na Via K2 - Corcovado RJ
Visual

Escalada na Via K2 - Corcovado RJ
Base da via ao fundo

Escalada na Via K2 - Corcovado RJ
Marcos Velhinho guiando a primeira enfiada

Escalada na Via K2 - Corcovado RJ
Marcos Velhinho na Horizontal

Escalada na Via K2 - Corcovado RJ
Visual

Escalada na Via K2 - Corcovado RJ
Visual

Escalada na Via K2 - Corcovado RJ
Aos pés do Cristo Redentor

Escalada na Via K2 - Corcovado RJ
Visual do Cristo Redentor, com Niterói ao fundo.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

De volta à Três Picos

Por Leandro do Carmo

Sabe quando uma criança ganha um brinquedo novo e quer logo brincar com ele? Pois é... Foi assim que eu estava me sentido. Havia comprado um carro novo e queria mesmo era colocar o carro pra andar. Apesar de não ser uma viagem longa, aproveitei que a galera do Clube Niteroiense de Montanhismo estaria por lá e que seria um feriado prolongado, fui passar o final de semana nesse paraíso.

Para quem não conhece, o Parque Estadual dos Três Picos é o maior parque estadual do Rio de Janeiro, com 46.350 hectares. Situado nos municípios de Teresópolis, Nova Friburgo, Guapimirim, Silva Jardim e Cachoeiras de Macacu, o parque visa preservar o cinturão central de Mata Atlântica do Estado. Em suas densas matas foram encontrados os mais elevados índices de biodiversidade em todo o Estado, sendo considerada uma região da mais elevada prioridade, em termos de conservação, pelos especialistas. A criação do Parque com suas montanhas de expressão, Caledônia, Pedra do Faraó, Torres de Bonsucesso, Mulher de Pedra e os próprios Três Picos, entre muitas outras, é de grande importância, não só para a região e de seus moradores, como para todos os que o visitam.

Fui com meu tio Renato. Saímos bem cedo de casa pois queríamos chegar rápido para aproveitar mais. A viagem foi bem tranquila e rápida. Fomos por Teresópolis. Passei no Abrigo Três Picos para ver se o Zezinho estava em casa, mas não encontrei ninguém. Segui subindo. Minha ideia era deixar o carro lá no Mascarim. Após a porteira que dá acesso ao Mascarim, parei para acionar o 4x4  e segui subindo. A estrada até que não estava muito ruim e subi bem rápido. Dali seguimos andando até o Vale dos Deuses. Dessa vez não economizei no peso. Levei tudo que eu queria, o peso da minha mochila deveria estar na casa dos  20kg. Ainda bem que a caminhada é curta, cerca de 40 min.

No Vale dos Deuses, armamos as barracas e fui dar uma volta. O dia estava ótimo e ficaria assim durante todo o final de semana. Esse final de semana tirei para não fazer absolutamente nada. Não programei nenhuma trilha ou escalada. Fui para ficar literalmente à toa... Eu e meu tio montamos uma pequena mesa com galhos, o que nos ajudaria bastante nesses dias.  O dia foi passando e algumas pessoas iam chegando. Pensei que a área de camping fosse ficar cheia, mas acabou que não. A noite chegou e com isso o frio também. Ficamos batendo um papo até entrei na barraca para dormir.

O dia amanheceu firme, porém frio. Fiquei esperando o sol aparecer e acabou que demorou um pouco devido a uma nuvem. Mas quando ele saiu, deu aquela esquentada.  Não tem nada melhor do que pegar um sol depois de uma noite de frio. Enquanto o dia passava, mais gente ia chegando. Assim que o Marcelo chegou, ajudei-o a pegar mais algumas coisas no carro. Deu um reforço generoso na comida, valendo a pena a viagem. Depois do almoço, uns foram ao Cabeça do Dragão, outros ficaram por ali mesmo. Eu fui à Caixinha de Fósforo. Uma impressionante formação rochosa. Uma grande rocha equilibrada em uma pequena base. De vez em quando parece que vai cair... Bati algumas fotos e voltei para o camping, passando antes em um trecho onde o córrego que nasce perto da área de camping, forma um pequeno poço, que até para um banho nos dias mais quentes.

Voltei e preparei meu almoço. Ficamos batendo um papo até o final da tarde. Aproveitei para ir à base
da Rodolpho Chermont, uma das vias mais curtas e acessíveis para se chegar ao topo do Capacete. Na volta, desci rápido para dar uma aquecida e enfrentar o banho gelado. Deu certo! Cheguei suado e com calor. Peguei a toalha e fui direto para o banho. Mas o calor durou pouco. Foi só abrir a água do chuveiro... A água parecia que iria furar o couro cabeludo. Agilizei o banho...

Durante o jantar, combinamos de ver o sol nascer do cume do Cabeça do Dragão. Tínhamos que acordar cedo. Ficamos ainda batendo um papo numa noite bem agradável. A hora foi passando e fui para a barraca dormir. Na madrugada o relógio despertou. Até pensei em desistir, mas saí do saco de dormir. Peguei a pequena mochila que havia deixado arrumada na véspera. Tinham algumas pessoas em volta. Chamei alguns e fui subindo com que já estava acordado. Como a trilha é curta e não tem muita dificuldade, não teria problema em irmos separados. Subi rápido e chegamos no cume ainda noite. Tivemos que esperar um pouco. Aproveitei para fazer um café. Ventava um pouco e procurei um local mais abrigado. O frio estava incomodando um pouco, mas assim que me abriguei do vento, fiquei mais confortável.

Aos poucos, o negro da noite, foi dando espaço a um avermelhado no horizonte. As luzes da cidade contrastavam com o branco das nuvens, formando uma obra de arte. No horizonte, a cor azulada foi predominando e uma linha avermelhada foi se formando. O espetáculo não dura muito. Assim que o sol nasceu a paisagem mudou de forma. O relevo foi aparecendo como uma revelação fotográfica. Olhando para os Três Picos, percebi o quanto ele fica iluminado pelo sol. Não faltaram fotos para registrar o momento.

Com o dia completamente claro, foi hora de descer. A caminhada foi rápida e logo estávamos de volta. Ao chegar no acampamento uma coisa engraçada. O Marcelo esqueceu a barraca aberta e dois cachorros que estavam rodando o local entraram e fizeram a festa na comida. Deram um bom desfalque, principalmente nas coisas que estavam abertas. Nada que prejudicasse as refeições.

Ficamos ainda por ali batendo um papo. Uma parte do grupo foi ao Pico Médio e Menor. E, optei por ficar ali sem fazer nada, esperando o tempo passar. Não tínhamos hora para ir embora, mas fomos arrumando as coisas e depois de tudo pronto, seguimos até o carro e de lá pegamos o caminho de volta. Um belo final de semana! Até a próxima

Vista do vale

Vale dos Deuses

Cume do Cabeça de Dragão

Na base da Caixinha de Fósforo

Vale dos Frades ao fundo

Nascer do sol no Cabeça de Dragão

Descida do Cabeça de Dragão

Capacete, Pico Maior e Médio

Caminho até o Vale dos Deuses