sábado, 24 de março de 2018

A impressionante Agulha do Diabo

Por Leandro do Carmo

Agulha do Diabo

Escalada na Agulha do Diabo

Data: 23/09/2017
Participantes: Leandro do Carmo, Marcelo Correa, Ary Carlos, Blanco Pinheiro e Guilherme Gregory

Dicas para escalar a Agulha do Diabo

É uma atividade pesada. Só de caminhada de aproximação, leva-se, em torno de 4 a 5 horas. A caminhada após o Mirante do Inferno é a mais crítica e costuma ficar bem úmido, dificultando bastante, por isso, avalie caso esteja em período chuvoso. Muita gente opta por acampar no Paquequer, numa pequena área antes do Mirante do Inferno (mas deve-se pedir autorização com o Parque), para sair bem cedo no dia seguinte. A escalada em si consiste em lances de entalamento e chaminés. O lance final é feito em cabo de aço. No cume, o espaço é limitado e cabem poucas pessoas. Não é muito comum encontrar grandes grupos escalando, mas há possibilidade. Se for fazer em um dia, comece bem cedo e tenha certeza de que voltará parte do caminho durante a noite.

Como chegar à Agulha do Diabo

Na trilha para a Pedra do Sino, logo após a Cota 2000, há uma saída para a esquerda. Essa trilha é conhecida como “Caminho das Orquídeas”. Siga descendo e vire à direita na bifurcação. Seguirá por um longo caminho até chegar ao acampamento Paquequer, um pequeno descampado, onde cabem poucas barracas. Dali, cruzará o rio Paquequer e subirá em direção ao Mirante do Inferno. Pegar uma saída à esquerda, que te levará ao colo entre o Mirante do Inferno e o São João. Descerá à direita, até a base da Agulha e subirá um trecho bem úmido.

Relato da Escalada na Agulha do Diabo

Agulha do DiaboEnfim havia chegado o grande dia. Há alguns anos atrás, quando fiz o curso básico de escalada, ouvi alguém dizer sobre uma escalada na Agulha do Diabo. Como não conhecia, fui logo pesquisar. Na primeira pesquisa, eis que surge uma foto simplesmente fantástica! Numa primeira análise, parecia algo impossível... Mas era naquele momento. Porém, algo me dizia que um dia estaria lá...

O tempo foi passando e foram algumas tentativas... Ora o tempo não ajudava, ora compromissos pessoais... Sempre tinha alguma coisa que me fazia adiar. Mas não desisti e nem desanimava, toda vez que passava pelo Parque Nacional da Serra dos Órgãos, me certificava de que ela estava lá a me esperar. E passou tanto tempo, que ficava até com um pouco de vergonha, quando o assunto Agulha do Diabo vinha a tona e eu falava que ainda não havia ido. Estava na hora de passar isso a limpo!

Eu, Ary Carlos, Marcelo Correa e seu filho, Lucas, havíamos marcado de escalar a Agulha dois meses atrás. Pensa naquela noite estrelada... E foi assim. Entramos no parque às 6 da manhã com um dia aberto e firme. Foi só passar da altura do antigo Abrigo 2 que as nuvens estavam lá estacionadas, trazendo uma chuvinha rala... Ainda chegamos ao início da descida do Caminho das Orquídeas na esperança do tempo abrir, mas nada... Havia parado na garganta o grito de gol.

Dessa vez tinha tudo pra dar certo. Estávamos num período forte de estiagem. Tudo muito seco. Apesar das condições difíceis para a vegetação e animais, estar seco, facilitaria a muito a caminhada de aproximação. Dessa vez, eu, Ary Carlos, Marcelo Correa, Guilherme Gregory e o Blanco Pinheiro nos organizamos para, enfim, escalar a tão sonhada Agulha do Diabo. Saímos as 4:30 da manhã de sábado. O Marcelo Correa nos esperava em Teresópolis. A viagem foi tranquila e com a estrada livre chegamos cedo em Teresópolis. Já havia gente na portaria, prenúncio de um dia cheio no PARNASO.  Acertamos tudo e seguimos para a Barragem.  Lá nos preparamos e tivemos que descer para deixar o carro estacionado mais embaixo.
Agulha do Diabo
Enfim começamos a caminhada. Eram 6:30 da manha e nossa previsão de chegada à base, seria por volta das 10:30. Começamos a subida e fomos num ritmo bom. Cruzamos  o local do antigo Abrigo 1 e passamos pela Cachoeira do Véu da Noiva completamente seca. Isso mesmo, completamente seca. Ainda não havia visto algo parecido. Seguimos e mais acima, na Cachoeira do Papel, mais uma decepção, só existia um pequeno filete de água, que mal dava para encher as garrafas. Tratei logo de encher minha garrafa extra, não sabia se o Paquequer estaria com água.

Continuamos a subida e usamos a subida pela base do Paredão Paraguaio, na Pedra da Cruz para ganharmos um pouco mais tempo, apesar da subida mais forte. Quando chegamos na laje, já na descida para o Caminho das Orquídeas, onde havíamos voltado da última vez, nos deparamos com uma vista fantástica. O dia estava completamente limpo. Uma leve brisa balançava as folhas das árvores. Pequenas nuvens contrastavam com o céu azul. Um espetáculo.

Descemos com o piso seco e foi mais fácil que das últimas vezes que havia ido ao local. Descemos o grotão e logo chegamos no Abrigo Paquequer. Um pequeno local de acampamento muito utilizado para quem faz a Agulha do Diabo em dois dias. Muitos preferem pernoitar no local e acordar cedo para escalar. Existe o incômodo de subir com mais peso, mas cada um define sua estratégia. Ali a água era escassa, mas em maior quantidade. Enchemos novamente nossas garrafas. E seguimos subindo em direção ao Mirante do Inferno. No caminho pegamos o caminho da esquerda, em direção ao São João. Descemos um terreno instável e até que chegamos ao colo entre o Mirante e o São João. Dali, descemos à direita em direção ao Vale da Geladeira.

Agulha do Diabo
É uma descida técnica e difícil, apesar de seca. Muitas pedras soltas. Havia muito limo seco nas pedras. Fiquei imaginando como seria o local molhado... Ficou apenas na imaginação. Dali, a vista da Agulha era fantástica. Estávamos a uma distância razoável o que nos permitia ver com detalhes, alguns dos lances clássicos da escalada, como o Cavalinho. E continuamos a descida. Em um determinado ponto começamos a subir em direção à Agulha. O caminho era mais difícil. Mais uma vez agradeci a seca... Fomos ganhando altitude e chegamos a uma gruta, onde entramos e fizemos um lance de chaminé até chegar ao alto da pedra, na volta, faríamos um rapel num grampo que havia ali no alto. Dali chegamos a um pequeno largo e com mais uma subida, estávamos na base da escalada!
Fizemos um lanche e nos preparamos para a escalada. Deixamos nossas mochilas e levamos somente o necessário. No casa do Agulha, a mochila iria atrapalhar os vários lances de entalamento e chaminés estreitas. Dividimos em duas cordadas. Eu e o Macelo fomos na frente e o Blanco, Ary e Guilherme por último.

O Marcelo guiou a primeira enfiada. Fui observando o movimentos, pelo menos os primeiros, logo acima, já se perde o contato visual. Assim que ele chegou à parada, foi hora de seguir. O primeiro lance olhando de baixo parece simples, mas as fendas são cegas e é preciso posicionar bem o pé esquerdo para sair bem e dominar o lance. Logo acima vem um bloco, um pouco mais fácil que o de baixo.  Seguimos mais uns trepa pedras até pegar uma diagonal para cima. Primeira parte finalizada!

Chegou minha vez de guiar. Sai da primeira parada e a segunda enfiada começa com um lance de entalamento. Subi um pouco e protegi com um camalot, melhorando o psicológico do trecho. Tentei uma vez, mas não encaixei e na segunda tentativa, me posicionei melhor, usando as pernas e o lado do corpo até subir mais um pouco e chegar próximo ao grampo, quando pude passar a costura e ficar protegido. Um lance bem bacana. Daí pegar uma horizontal para a esquerda numa fendinha, seguindo na ponta dos pés. Uma boa agarra acima deixou o lance bem tranquilo. Depois foi seguir uma pequena e delicada trilha até a parada dupla utilizada para o rapel, onde montei a segunda parada. O Marcelo veio logo em seguida. Dali já pude ver a outra cordada chegando. Seguimos todos mais ou menos juntos.

Agulha do Diabo
Subi uma pequena trilha, num caminho já bem marcado. Alguns trechos estão bem instáveis e é preciso atenção. Passei por baixo de uns grandes blocos até a base de mais uma chaminé. Dali dava para ver o quanto vertical era o trecho. Já estávamos bem próximos do nosso destino. O Marcelo guiou esse lance. Segui até o final da chaminé e subi até um buraco, onde entrei até o lado de fora, passando com um pouco de dificuldade. Daí foi subir mais um pouco e ir andando pelas pedras suspensas até uma grande pedra entalada, bem acima de onde entramos. Deu um pouco de arrasto na corda. Chegou até a prender em alguns momentos. Em cima dessa grande pedra, dá para ver o grampo um pouco mais alto. Na técnica de oposição, dominei o lance, até chegar ao grampo onde o Marcelo já havia deixado uma fita, fazendo um artificial até um confortável platô.

Agulha do Diabo
Nesse ponto, podíamos ver toda a extensão da Chaminé da Unha. Estávamos de frente para o São João e podíamos ver um grupo lá no alto. Ali, a vista surpreendia... Enquanto a cordada de trás subia, fui me preparando para o famoso lance do Cavalinho. Já estava pronto e o Marcelo me passou algumas dicas. Dei uma olhada antes e respirei fundo e subi um pouco depois do grampo afim de pode encaixar primeiro o ombro para poder me equilibrar. Depois, foi chegar um pouco para frente e colocar a perna esquerda. Alguns escaladores até passam em pé, mas preferi fazer o lance da maneira mais comum e na qual achei mais fácil... Segui devagar, sempre me apoiando bem. Olhei para baixo e vi o quanto estava alto. Tratei logo de olhar para frente e me concentrar, faltavam apenas alguns metros para completar. O Marcelo me chamou e bateu uma foto. Segui até a ponta e optei por entrar completamente na fenda. Como sou magrinho, não tive dificuldades. Saí do lance entrei numa estreitíssima chaminé. Era tão estreita que foi fácil dar segurança dali para o Marcelo.

Assim que ele completou o lance, segui para o outro lado, já me preparando psicologicamente para a Chaminé da Unha. Vou aqui descrever um pouco esse trecho. Trata-se de uma gigantesca laca, que está equilibrada em uma das faces, já próxima ao cume, formando uma grande e regular chaminé.  Diz a lenda que ela até balança! Brincadeiras a parte, não seria eu o responsável por descobrir a verdade!!! Foi hora de me preparar para guiar mais esse trecho, talvez o melhor da escada. Talvez não, com certeza.

Agulha do DiaboDe onde estava, podia ver um grampo muito alto. Pensei que fosse o primeiro, mas chegando um pouco mais para frente, pude ver que era o segundo, mas mesmo assim, estava alto. As proteções são aquelas padrão chaminé que conhecemos bem: um grampo lá longe e outro muito lá longe...  Sem muito enrolar e aproveitar o corpo quente, toquei para cima. Como movimentos sincronizados, fui ganhando altura e mais altura. Já não tinha como voltar atrás... A parede é bem aderente e regular. Comecei o lance de frente para o São João, seguindo a dica do Marcelo. Protegi no primeiro grampo e segui para um degrau, onde pude descansar um pouco. Consegui fazer algumas fotos e nesse ponto, virei de costa para o São João, visto que unha fica convexa ao seu final, isso facilitaria terminar o lance.

Agulha do Diabo
Segui subindo e protegi num grande, antigo e torto grampo. Fui ganhando altura e olhando para cima, a alça do cabo de aço já se aproximava. Faltavam apenas alguns metros...  Com aquela vontade de chegar rápido, parecia que o cabo se distanciava. Concentrei e parei de me preocupar. Quando olhei novamente, ele já estava na altura da minha cabeça. Apoiei com mão no cabo e subi mais um pouco até passar para o topo da unha. Ali foi descansar um pouco e apreciar a fantástica vista. Descansei um pouco e dei segurança ao Marcelo que rapidamente chegou. Estar ali é algo que dificilmente conseguirei descrever...

Bom, faltava o último trecho. O lance do cabo não tem muito mistério, mas todo cuidado é pouco. Fui subindo e passei por um trecho bem vertical, até que foi perdendo inclinação. Pronto, estava no cume. Realizava um sonho. Sozinho por um instante, com aquele dia maravilhoso, foi difícil conter as lágrimas. Uma mistura de sentimentos entre realização, alegria, alívio, etc... Rapidamente olhei em volta e me posicionei no centro do pequeno cume e agradeci a Deus por estar me proporcionando esse momento mágico. Poucos terão a oportunidade que tive. Por instante refiz todo o caminho que percorri até ali. Fechei os olhos e respirei fundo, me fazendo voltar a escalada, afinal de contas, tinha completado a metade do caminho.

Agulha do Diabo
Me prendi ao grampo que fica ao lado da caixa metálica onde se encontra o livro de cume e montei segurança para o Marcelo que subiu rapidamente. Quando ele chegou ainda falei: “Missão cumprida”. Ele me respondeu: “Ainda falta a volta”. Pois é, completamos apenas metade da missão! Enquanto a outra cordada não chegava, batemos várias fotos para registrar e tivemos a sorte de ter outros grupos no São João e Mirante do Inferno. Um moça que estava no Mirante do Inferno nos viu no cume e gritou: “De qual clube?” Eu respondi: “Niteroiense” .  Aos poucos todos foram chegando e conseguimos nos reunir no pequeno cume. O dia continuava perfeito.  Começamos a nos preparar para descer. Seguimos por dois rapeis até a base de um bonito e mais baixo cume, chamado de Agulha da Neblina. O Blanco escalou e eu me arrependi profundamente de não ter ido... Mas tudo bem, ficará para a próxima...

Descemos uma pequena trilha e fizemos mais um rapel até a base, onde havíamos deixado nossas mochilas. Fizemos um lanche e foi hora de pegar o longo caminho de volta até a barragem. Às 18:00, estávamos de volta a Trilha do Sino e as 20:00, chegávamos na Barragem.

Agora sim, poderia dizer: Missão cumprida!

Agulha do Diabo
Base da via

Agulha do Diabo
Lance do Cavalinho

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Chaminé da Unha

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Leandro do Carmo e Marcelo Correia no cume

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Leandro do Carmo escalando o lance final

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No lance final

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Ary chegando ao cume

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Leandro, Ary e Marcelo

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Marcelo Correia (em pé) e Leandro do Carmo no cume

Agulha do Diabo
da esquerda: Blanco, Ary, Marcelo, Leandro e Guilherme

Agulha do Diabo
Leandro e Marcelo no cume