quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Escalada na Via K2 - Corcovado RJ

Por Leandro do Carmo

Data: 20/12/2017


Escalada na Via K2 - Corcovado RJ
Vista da base da via

Escalada na Via K2 - Corcovado RJ


Participantes: Leandro do Carmo, Blanco P. Blanco, Marcos Velhinho e Alexandre Xavier

Dicas para escalar a Via K2


Uma das clássicas do Rio de Janeiro, com diversas técnicas como fendas, diedros, agarras e aderências. É relativamente curta, com cinco enfiadas e um visual fantástico.

A primeira enfiada segue por um grande diedro protegido por proteções fixas. A segunda enfiada segue numa horizontal para a esquerda com agarras. A vista nesse ponto chegar a dar calafrios. Chega a uma parada dupla, antes do lance do “Crucifixo”, muitos param ali.  Existe a opção de fazer a K3, uma variante que segue o diedro da primeira enfiada, após a primeira dupla de grampos, graduada em 6ºsup e protegida em móvel, com cerca de 20 metros. A terceira enfiada é bem tranquila e segue até o platô antes do lance do “Palavrão”. Na quarta enfiada, saímos para o lance do “Plavrão”. O lance é relativamente tranquilo, mas bem exposto. Como não tem proteção, muitos acidentes já aconteceram no local.  Uma queda, leva o guia direto à base. Após o lance do “Palavrão”, segue-se numa diagonal para a esquerda, até entrar um grande laca e subir num lance meio exposto até um grampo logo acima, seguindo, novamente numa horizontal para a esquerda, até um confortável platô. A última enfiada é uma retinha, até a esquerda da estrutura de contenção, onde pegamos um pequena trilha até os pés do Cristo Redentor.

Levar pelo menos umas 7 a 8 costuras e peças ajudam a diminuir a exposição em alguns lances.
Há um estacionamento lá no alto, próximo ao centro de visitantes, mas pode acontecer de não ter mais vaga, pois é pequeno. Lembre-se que finais de semana costuma ficar muito cheio. Depois que o acesso ao Cristo fecha, as vans somem e fica tudo deserto. O melhor horário é na parte da tarde. A partir das 14h já tem sombra. Evite deixar coisas de valor no carro, principalmente se começar a escalar muito tarde e for descer a noite.

Como chegar à base da via K2

Subir a Estrada das Paineiras, até o ponto onde param as vans. Há um estacionamento no local, mas nem sempre há vaga. Dali pegar a estra que continua subindo até o Cristo e numa curva acentuada para a direita, pegar a trilha na margem esquerda, na cerca de cimento. Seguir contornando a parede até a base.

Relato da escalada na Via K2

Essa foi uma via que estava há anos para eu fazer. Cheguei a marcar diversas vezes, mas sempre acontecia alguma coisa que não podia ir. Mas dessa vez foi diferente. Estava de férias e topando qualquer coisa. Achar alguém para escalar no meio da semana não é uma das tarefas mais fáceis. O Blanco havia ido lá alguns dias antes e estava na pilha de voltar para mandar a variante K3. Quando ele fez o convite, logo topei. Se juntaram a nós o Velhinho e o Alexandre.

Escalada na Via K2 - Corcovado RJ
No caminho...
Marcamos de nos encontrar as 13:00 lá em cima, no ponto final das vans. O Velhinho passou na minha casa e de lá seguimos. O trânsito estava bom e rapidamente chegamos em Laranjeiras. Eu, nem o velhinho lembrávamos muito bem do caminho, mas fomos seguindo o aplicativo. Na subida, já em Cosme Velho, quase fomos literalmente parados por algumas pessoas que diziam não poder subir de carro, provavelmente querendo oferecer algum serviço de transporte alternativo. Só não sabiam que não éramos turistas. Primeira má impressão no, talvez, maior cartão postal do país...

Seguimos subindo até chegar à estação do trem do Corcovado. Para quem vai de carro, é o ponto final. Entramos num estacionamento e fomos recebidos por um guardador de carro que não era do Parque Nacional da Tijuca. Haviam algumas pessoas estranhas no local, mas nada de mais, principalmente pra gente que já conhece como funciona. Conversamos com ele e resolvemos deixar o carro ali mesmo. O Blanco avisou que iria atrasar um pouco, então fomos fazer um lanche.

Escalada na Via K2 - Corcovado RJDepois de um tempo, o Blanco chegou com o Alexandre e seguimos para o início da trilha. Fomos subindo pela estrada, até que chegamos ao ponto de uma curva bem acentuada para a direita. O início da trilha fica na margem esquerda da estrada, numa mureta de concreto. Entramos na trilha e fomos andando com parede do Corcovado bem a direita. A trilha foi bem tranquila e está bem marcada. Há alguns pequenos trechos com erosão, mas nada que atrapalhe muito.

Mais alguns minutos estávamos na base. O dia estava quente e aberto. Mas faz sombra nessa face e a via fica totalmente sem sol. Ali na base, nos arrumamos e dividimos a cordada. Não tínhamos costuras suficientes para duas cordadas. Por uma falha de comunicação, não sabíamos que faríamos duas cordadas. Dividimos o material que tínhamos e optamos por deixar as costuras nos grampos para a segunda cordada. Assim não teríamos problemas. A vista da base já impressionava, o prenúncio do que iria encontrar pela frente.

Escalada na Via K2 - Corcovado RJ
Primeira enfiada
Me preparei primeiro e saí para guiar a primeira enfiada, com a segurança do Blanco. O primeiro lance segue no domínio de uma grande laca, logo na base, costurando bem acima. Dali até o segundo grampo tem um lance bem delicado, onde temos que usar uma fissura para colocar o pé, até progredir e chegar ao segundo grampo. Uma queda ali, me levaria quase na base. Passei o lance e dei uma descansada até seguir subindo. Foi o aquecimento necessário. Ora em oposição, ora em agarras, fui subindo num bom ritmo. O diedro é bem bonito e são poucos os pontos onde não conseguimos encaixar a mão. Parei na primeira dupla de grampos, pois dali, o Blanco seguiria guiando na variante K3.  A vista era coisa de louco! Como já começamos a escalar bem alto, dá a impressão que fazemos um verdadeiro BigWall. O Alexandre veio subindo em seguida e teve um pouco de dificuldade para passar o lance inicial. Chegaram mais duas pessoas para escalar, mas acabaram desistindo, visto que, além do Alexandre, faltava ainda o Velhinho e o Blanco a subirem.

Depois que o Alexandre chegou na parada. O Velhinho começou a subir. Passou por mim e foi direto para a próxima parada dupla. Logo em seguida, subiu o Blanco e parou onde eu estava. Agora, o Alexandre seguiu para a parada onde o Velhinho montou a parada, logo abaixo do lance do “Crucifixo”.. Havíamos mudado de parceiros. O Blanco se preparou para guiar a variante e separou as peças, visto que esse trecho não possui grampos, devendo ser todo protegido em móvel. É a continuação natural do diedro inicial, um pouco mais difícil, com crux de 6ºsup.

Escalada na Via K2 - Corcovado RJ
Blanco na variante K3
O Blanco saiu da parada e subiu bem, antes de colocar o primeiro camalot. Tentou seguir, mas voltou
um pouco e melhorou a proteção. Seguiu subindo, colocou mais algumas peças e voltou para a parada. Descansou um pouco e daí, tocou direto até o grampo onde montou a parada. Era a minha vez de subir. Como estava com corda de cima, não me preocupei muito. Tinha a chance de arriscar mais. Segui subindo. Fui sacando as peças e progredindo lentamente. Até passar pelo crux. É preciso esticar a mão e encaixar na fissura, num bico quebrado. Olhando de baixo, nem parece, mas a pega é excelente. Tem que encaixar bem a mão, senão, ela pode escapar. Colocada a mão e certificado que estava firme, foi só correr para o abraço, ou melhor, para a parada.

Quando cheguei à parada, peguei mais algumas costuras e continuei a escalada. Saí da parada meio estranho e dei um passo abaixo, voltando a subir certo, pegando uma boa agarra na direita. Foi dominar e subir. Não deixa de olhar para baixo nem um minuto. A altura impressionava cada vez mais. A vista, fantástica como sempre, dava um choque de adrenalina que precisava. Continuei subindo, agora em lances mais fáceis e com boas agarras, até chegar ao platô, antes do lance do Palavrão. De lá, dei segurança para o Blanco. O Velhinho chegou logo em seguida e o Blanco veio dando uma ajuda para o Alexandre.

Escalada na Via K2 - Corcovado RJ
Leandro no lance do
"Palavrão"
O platô é bem confortável e nos acomodamos bem. Para o conhecido lance do “Palavrão”, peguei algumas peças com Blanco, pois é uma subida sem proteção fixa e uma queda ali, leva direto ao platô. Esse ponto já fez algumas vítimas... Foram alguns tornozelos e  pés quebrados e alguns resgates... Não queria fazer parte da estatística! Segui subindo e com boas agarras. Coloquei um camalot, não me recordo o número, e segui tranquilo. Passei o temido lance sem dificuldades... Segui numa horizontal para a esquerda, até chegar numa grande laca, onde coloquei mais uma peça e subi até o platô, abaixo da estrutura de contenção. Montei a parada. O Velhinho veio guiando e em seguida o Blanco e o Alexandre. Só depois de todos no platô que o Velhinho me disse que caíra antes de costurar a proteção colocada no “Palavrão”. Sorte que nada aconteceu.

Dali, subi a retinha final, num lance com pequenas agarras. Montei a parada numa árvore e esperei a galera subir. O lance final não é de graça... Quem vai achando que já terminou a via, se engana... O dia estava chegando ao fim e depois de todo o calor, um vento forte até ameaçou fazer um friozinho, mas ficou só na ameaça. Depois de todos na parada, seguimos subindo até o Cristo Redentor, que ainda não estava iluminado. É uma trilha curta que chega, literalmente aos seus pés. O local estava completamente vazio, salvo por algumas pessoas que estavam fazendo uma filmagem no local com um drone. O horário de visitação já havia acabado.

Escalada na Via K2 - Corcovado RJ
Chegada ao Cristo Redentor
Nunca havia ido ao Cristo. A vista é realmente fantástica. Impossível não se encantar com a Cidade Maravilhosa... Apesar de todos os problemas, olhando lá de cima parecia que estávamos num paraíso. Fomos apressados a descer pelo responsável do local. Descemos ainda equipados até o ponto onde param as vans. Achávamos que ganharíamos uma carona, mas ficamos na saudade. Assim que cruzamos o portão, paramos para nos desequipar e arrumar as mochilas. Descemos a estrada até pegarmos a linha do trem e descer reto até a estação, onde o carro estava estacionado. Daí, foi enfrentar o crux da escalada: o trânsito de volta para Niterói! Mas depois desse dia, nada podia mudar o meu humor. Missão cumprida!!!

Escalada na Via K2 - Corcovado RJ
Na nossa primeira parada

Escalada na Via K2 - Corcovado RJ
Leandro escalando o último lance

Escalada na Via K2 - Corcovado RJ
Na primeira parada

Escalada na Via K2 - Corcovado RJ
Finalizando a variante K3

Escalada na Via K2 - Corcovado RJ
Leandro acima e o Alexandre abaixo

Escalada na Via K2 - Corcovado RJ
No platô, já perto do final

Escalada na Via K2 - Corcovado RJ
Vista da via

Escalada na Via K2 - Corcovado RJ
Visual

Escalada na Via K2 - Corcovado RJ
Base da via ao fundo

Escalada na Via K2 - Corcovado RJ
Marcos Velhinho guiando a primeira enfiada

Escalada na Via K2 - Corcovado RJ
Marcos Velhinho na Horizontal

Escalada na Via K2 - Corcovado RJ
Visual

Escalada na Via K2 - Corcovado RJ
Visual

Escalada na Via K2 - Corcovado RJ
Aos pés do Cristo Redentor

Escalada na Via K2 - Corcovado RJ
Visual do Cristo Redentor, com Niterói ao fundo.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

De volta à Três Picos

Por Leandro do Carmo

Sabe quando uma criança ganha um brinquedo novo e quer logo brincar com ele? Pois é... Foi assim que eu estava me sentido. Havia comprado um carro novo e queria mesmo era colocar o carro pra andar. Apesar de não ser uma viagem longa, aproveitei que a galera do Clube Niteroiense de Montanhismo estaria por lá e que seria um feriado prolongado, fui passar o final de semana nesse paraíso.

Para quem não conhece, o Parque Estadual dos Três Picos é o maior parque estadual do Rio de Janeiro, com 46.350 hectares. Situado nos municípios de Teresópolis, Nova Friburgo, Guapimirim, Silva Jardim e Cachoeiras de Macacu, o parque visa preservar o cinturão central de Mata Atlântica do Estado. Em suas densas matas foram encontrados os mais elevados índices de biodiversidade em todo o Estado, sendo considerada uma região da mais elevada prioridade, em termos de conservação, pelos especialistas. A criação do Parque com suas montanhas de expressão, Caledônia, Pedra do Faraó, Torres de Bonsucesso, Mulher de Pedra e os próprios Três Picos, entre muitas outras, é de grande importância, não só para a região e de seus moradores, como para todos os que o visitam.

Fui com meu tio Renato. Saímos bem cedo de casa pois queríamos chegar rápido para aproveitar mais. A viagem foi bem tranquila e rápida. Fomos por Teresópolis. Passei no Abrigo Três Picos para ver se o Zezinho estava em casa, mas não encontrei ninguém. Segui subindo. Minha ideia era deixar o carro lá no Mascarim. Após a porteira que dá acesso ao Mascarim, parei para acionar o 4x4  e segui subindo. A estrada até que não estava muito ruim e subi bem rápido. Dali seguimos andando até o Vale dos Deuses. Dessa vez não economizei no peso. Levei tudo que eu queria, o peso da minha mochila deveria estar na casa dos  20kg. Ainda bem que a caminhada é curta, cerca de 40 min.

No Vale dos Deuses, armamos as barracas e fui dar uma volta. O dia estava ótimo e ficaria assim durante todo o final de semana. Esse final de semana tirei para não fazer absolutamente nada. Não programei nenhuma trilha ou escalada. Fui para ficar literalmente à toa... Eu e meu tio montamos uma pequena mesa com galhos, o que nos ajudaria bastante nesses dias.  O dia foi passando e algumas pessoas iam chegando. Pensei que a área de camping fosse ficar cheia, mas acabou que não. A noite chegou e com isso o frio também. Ficamos batendo um papo até entrei na barraca para dormir.

O dia amanheceu firme, porém frio. Fiquei esperando o sol aparecer e acabou que demorou um pouco devido a uma nuvem. Mas quando ele saiu, deu aquela esquentada.  Não tem nada melhor do que pegar um sol depois de uma noite de frio. Enquanto o dia passava, mais gente ia chegando. Assim que o Marcelo chegou, ajudei-o a pegar mais algumas coisas no carro. Deu um reforço generoso na comida, valendo a pena a viagem. Depois do almoço, uns foram ao Cabeça do Dragão, outros ficaram por ali mesmo. Eu fui à Caixinha de Fósforo. Uma impressionante formação rochosa. Uma grande rocha equilibrada em uma pequena base. De vez em quando parece que vai cair... Bati algumas fotos e voltei para o camping, passando antes em um trecho onde o córrego que nasce perto da área de camping, forma um pequeno poço, que até para um banho nos dias mais quentes.

Voltei e preparei meu almoço. Ficamos batendo um papo até o final da tarde. Aproveitei para ir à base
da Rodolpho Chermont, uma das vias mais curtas e acessíveis para se chegar ao topo do Capacete. Na volta, desci rápido para dar uma aquecida e enfrentar o banho gelado. Deu certo! Cheguei suado e com calor. Peguei a toalha e fui direto para o banho. Mas o calor durou pouco. Foi só abrir a água do chuveiro... A água parecia que iria furar o couro cabeludo. Agilizei o banho...

Durante o jantar, combinamos de ver o sol nascer do cume do Cabeça do Dragão. Tínhamos que acordar cedo. Ficamos ainda batendo um papo numa noite bem agradável. A hora foi passando e fui para a barraca dormir. Na madrugada o relógio despertou. Até pensei em desistir, mas saí do saco de dormir. Peguei a pequena mochila que havia deixado arrumada na véspera. Tinham algumas pessoas em volta. Chamei alguns e fui subindo com que já estava acordado. Como a trilha é curta e não tem muita dificuldade, não teria problema em irmos separados. Subi rápido e chegamos no cume ainda noite. Tivemos que esperar um pouco. Aproveitei para fazer um café. Ventava um pouco e procurei um local mais abrigado. O frio estava incomodando um pouco, mas assim que me abriguei do vento, fiquei mais confortável.

Aos poucos, o negro da noite, foi dando espaço a um avermelhado no horizonte. As luzes da cidade contrastavam com o branco das nuvens, formando uma obra de arte. No horizonte, a cor azulada foi predominando e uma linha avermelhada foi se formando. O espetáculo não dura muito. Assim que o sol nasceu a paisagem mudou de forma. O relevo foi aparecendo como uma revelação fotográfica. Olhando para os Três Picos, percebi o quanto ele fica iluminado pelo sol. Não faltaram fotos para registrar o momento.

Com o dia completamente claro, foi hora de descer. A caminhada foi rápida e logo estávamos de volta. Ao chegar no acampamento uma coisa engraçada. O Marcelo esqueceu a barraca aberta e dois cachorros que estavam rodando o local entraram e fizeram a festa na comida. Deram um bom desfalque, principalmente nas coisas que estavam abertas. Nada que prejudicasse as refeições.

Ficamos ainda por ali batendo um papo. Uma parte do grupo foi ao Pico Médio e Menor. E, optei por ficar ali sem fazer nada, esperando o tempo passar. Não tínhamos hora para ir embora, mas fomos arrumando as coisas e depois de tudo pronto, seguimos até o carro e de lá pegamos o caminho de volta. Um belo final de semana! Até a próxima

Vista do vale

Vale dos Deuses

Cume do Cabeça de Dragão

Na base da Caixinha de Fósforo

Vale dos Frades ao fundo

Nascer do sol no Cabeça de Dragão

Descida do Cabeça de Dragão

Capacete, Pico Maior e Médio

Caminho até o Vale dos Deuses

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Morro do Açu e Alicate - Parque Nacional da Serra dos Órgãos

Por Leandro do Carmo

Data: 08 e 09 de Abril de 2017

Participantes: Leandro do Carmo, Ary Carlos, Andréa Vivas, Flávia Figueiredo, Nazaré Coelho, Rafael Pereira, Tafarel Ramos, Gabriel e Rafael Vieira

Relato

O título desse relato era pra ser Portais de Hércules. Pelo menos era a nossa programação, mas o tempo não deixou, adiou mais uma vez. Mas nem por isso desistimos. Na montanha toda experiência é válida e sempre há algo novo para fazer.

Aproveitando que o Taffarel abriu a atividade no Clube Niteroiense de Montanhismo, resolvi me juntar ao grupo e ir aos Portais.  Os Portais de Hércules ficam a cerca de 2 km dos Castelos do Açu, em um pequeno desvio no caminho sentido Travessia Petrópolis-Teresópolis, O percurso é relativamente curto.   O lugar é simplesmente um capricho natural, e, principalmente, geológico! Frente a frente com a majestosa Serra dos Órgãos, avistando paredões rochosos de aproximadamente 500 m de altura, seguida da Pedra do Garrafão, Agulha do Diabo, São João, Santo Antônio, Cabeça de Peixe, Dedo de Deus, Dedo de Nossa Senhora e Escalavrado. Abaixo, quase 300 metros de vale, um abismo colossal de onde emerge a Coroa do Frade, umas das montanhas mais bonitas do Parque, com 1.500 m de altitude. Com certeza um dos mais belos mirantes da região.

Ingressos comprados, abrigo agendado, era só esperar o dia chegar. Mas esquecemos de combinar com São Pedro... A previsão para o fim de semana não era das melhores, mas como já estava tudo pago e pelas políticas da empresa concessionária que administra o parque, não há devolução e nem podemos reagendar, fomos assim mesmo. A viagem até Correas, Petrópolis, foi tranquila. O tempo ainda estava firme, apesar de muitas nuvens. Chegamos à portaria do Parque e fizemos os trâmites para a entrada. Com tudo pronto, foi hora de começar a caminhada.

Seguimos por um belo e marcado caminho, margeando o rio. Nesse primeiro trecho, fomos ganhando elevação bem lentamente, salvo em algumas subidas mais fortes. Fomos seguindo até chegarmos na bifurcação que dá acesso a Cachoeira Véu da Noiva. As vezes, costumo deixar a mochila e vou visitar essa imensa queda d’água. Vale muito a pena, principalmente nos dias de calor. Como o dia não estava dos melhores, resolvi seguir subindo. Fui à frente do grupo e na altura da Pedra do Queijo, encontrei o Velhinho e meu irmão que estavam guiando um grupo na Travessia Petrópolis x Teresópolis.

Na Pedra do Queijo parei para fazer algumas fotos e um lanche rápido. As nuvens cobriam o Vale do Bonfim e não foi possível ver muita coisa. Assim que a galera chegou batemos uma foto e continuei subindo e fui encontrar meu irmão no Ajax. O tempo fechou mais um pouco e ameaçou cair uma chuva.  Ainda faltava a subida da Isabeloca, talvez a pior do dia. Fui cadenciando a subida, naquele ritmo constante. Fazia pouco tempo que havia sido feito um manejo na trilha, exatamente na subida da Isabeloca. Como o trecho estava bem erodido, o trabalho veio na hora certa.

Enfim chegamos ao alto da Isabeloca. O trecho mais forte havia passado. No alto do chapadão podíamos ver parte da Baia de Guanabara e bem ao fundo, Niterói. O tempo não permitia mais que isso. Estava ventando um pouco mais e a chuva começou. Veio fraca, mas o suficiente para molhar. Coloquei o poncho e segui andando. A partir daí, não há grandes desníveis. Antigamente, muita gente sentia dificuldade devido aos trechos de lajeado, mas hoje em dia está tão marcado, que até a rocha tem uma linha branca, ficando difícil se perder.

Fomos andando com aquela chuvinha fraca até que avistei de longe os Castelos do Açu. Não conseguia ver o cruzeiro no alto do Morro do Açu, as nuvens baixas atrapalhavam muito. Mais em baixo já podíamos ver o Abrigo do Açu e fui direto prá lá. Cheguei molhado e rapidamente tirei a roupa e fui para o banho. Como já estava molhado, ataquei a água fria. Na verdade, ser tivesse frio, estaria bom, o problema que a água estava a ponto de congelar, mas encarei assim mesmo!

Ficamos o restante do dia dentro do abrigo pois o tempo ficou ruim, não dando espaço para nenhum passeio. No começo da noite a chuva apertou e apareceram algumas pessoas bem molhadas que estavam passando um sufoco na área de camping. A chuva era tanta que a barraca não aguentou. Levantaram acampamento e foram pedir ajuda no abrigo. Acabaram dormindo embaixo da escada, mas pelo menos estavam secos  e sem frio.

Ainda restava uma esperança de conseguirmos ver o nascer do sol dos Portais de Hércules. Combinamos de acordar na madrugada e ver as condições do tempo. Sem mais nada para fazer, fui dormir. De madrugada, ainda ouvia o barulho da chuva. Nem me mexi quando os celulares começaram a despertar. Na posição em que estava, fiquei. A manhã chegou e aos poucos todos foram levantando. Deixei minha mochila arrumada e fui tomar o café da manhã. Dei um volta pelo abrigo e pelos Castelos do Açu. Estava bem molhado e às vezes caía uma chuva fraca.

Foi dando a hora de voltar... Como não tínhamos ido aos Portais, resolvi ir ao Alicate na descida. Pegamos o caminho de volta. Tudo bem fechado, não tivemos muita coisa para fazer. Demos uma volta completa pelos Castelos do Açu e seguimos caminho de volta. No Alto da Isabeloca, comecei a ir na frente do grupo. O Rafael se juntou a mim. Depois que passamos pela Pedra do Queijo, pegamos uma saída bem discreta à direita em direção ao vale entre a trilha e o Alicate.

Deixamos a mochila num canto e seguimos descendo. O caminho é bastante íngreme, principalmente nesse trecho inicial. Estava tudo molhado e escorregadio. Todo cuidado era pouco. No fundo do vale passa um córrego e ao fundo a Cachoeira do Alicate. Tentamos ir lá, mas tinham muitas árvores caídas no caminho. Resolvemos deixar para outro dia. Nosso objetivo era o cume do Alicate.

Voltamos e atravessamos o córrego e começamos a subir. A partir daquele ponto, seria só subida até o cume. o caminho é bem diferente das principais trilhas do PARNASO, um caminho mais fechado, porém sem bifurcações que possam trazer dúvidas. Fomos subindo e logo chegamos ao cume. Com certeza teríamos um belo visual se as nuvens permitissem. De vez em quando, podíamos ver parte do Vale do Bonfim ao fundo. Mais alguns minutos de caminhada e estávamos no cume. Descansamos um pouco e assinamos o livro de cume. Fui até um mirante que está do lado oposto e de lá pude ver a cachoeira Véu da Noiva bem pequena. Um espetáculo. Vi o Pico do Glória, já pensando numa próxima investida...

Descemos e em pouco tempo já estávamos de volta à trilha principal. Dali fui seguindo até a portaria do parque. Aproveitei para tomar banho em um dos  poços próximos a portaria. A água estava gelada, mas consegui descansar um pouco para pegar o caminho de volta. Mesmo com mudanças nos planos, cumprimos a missão!

Abrigo do Açú

Voltando...

Castelos do Açu

Na saída...

Castelos do Açú ao fundo

No abrigo

No abrigo

No Alicate, com o Véu da Noiva ao fundo

Cume do Alicate

Vale do Bonfim ao fundo

Por dentro dos Castelos do Açú