sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Guia de Trilhas de Niterói e Maricá: 26º dia, a travessia da Serra de Itaitindiba

Por Leandro do Carmo

Data: 12/03/2016
Participantes: Leandro do Carmo, Leonardo Carmo, André Pontes, Cris Anderson, Lando Mendonça e José Antônio

A Serra de Itaitindiba se destaca na paisagem de Maricá. Ela faz divisa entre os municípios de Maricá, São Gonçalo e Itaboraí. Foi nas pesquisas para mapeamentos das trilhas de Maricá que vi que seria viável fazer a travessia pela sua linha de cumeada. Na verdade, o nosso objetivo era fazer o Alto do Gaia a partir de Cassorotiba... Mas faltavam detalhes... Foi aí que comecei a aprofundar as pesquisas.

Não encontrei nenhum registro que indicasse que o caminho já havia sido percorrido e nem o que iríamos encontrar pela frente. Estava visível nas fotos de satélite um caminho por quase toda a linha de cumeada, mas existia um trecho sem caminho marcado... Esse seria, na teoria o nosso grande desafio.

Na semana anterior convidei algumas pessoas para participar da nossa empreitada. Conversando com o André, enviei alguns arquivos para ele preparar alguns mapas para nos ajudar. Discutimos também como seria nossa logística. A princípio pensamos em fazer no sentido Calaboca – Gaia, visto que o último ônibus que saía de Cassorotiba, seria as 12:00. Mas como ficaria muito apertado, decidimos pegar o primeiro ônibus, que sai as 8 da manhã, começando em Cassorotiba para terminar no Calaboca. Mais tarde vocês verão que essa foi uma decisão acertada!

E assim combinamos de nos encontrar na entrada do Spar. O André sairia de Inoã e nos encontraria no caminho. Eu, Leonardo, Cris, Lando e Zé Augusto nos dirigimos até a pracinha do Spar. Deixamos um carro na saída da trilha para facilitar a volta e o outro acabou ficando perto do ponto de ônibus. Pontualmente, às 8 h, o ônibus passou em Inoã e em poucos minutos estava passando por nós. Dentro do ônibus só o André e mais uma senhora. Também... quem vai parar em Cassorotiba as 8h de sábado? Entramos nos ônibus e ele foi balançando pela estrada de chão até que ele parou e o motorista disse: - Ponto final! A estrada não está boa e estamos parando por aqui. Esperávamos que seguiríamos até mais a frente, mas não tinha jeito, teríamos que iniciar nossa caminhada ali.

Estávamos na Estrada de Cassorotiba, nº 5000, em frente a entrada da fazenda homônima. Caminhamos por uma bela e agradável estrada e vimos que o caminho não estava ruim, daria para o ônibus passar numa boa...  A nossa esquerda a bela Serra de Itaitindiba e a direita, a do Macaco e Camburi. Passamos pela obra do duto da Petrobrás e começamos uma subida até que cruzamos para o município de Itaboraí. Dali, começamos a descer. Sabe aquelas horas em que as coisas começam a dar errado? Então... O GPS parou de funcionar e foi hora de sacar o mapa para poder nos auxiliar. Mas cadê o mapa? André tirou da mochila e esqueceu de colocar de volta. Vamos sem ele!

Continuamos caminhando e lembrei que tinha o arquivo no celular. E como ajudou! Vimos o ponto exato de onde teríamos que entrar. Seguimos subindo nesse primeiro trecho, mas optamos pelo caminho mais definido, o que não foi a melhor escolha... Ainda tentamos encurtar o caminho até o alto da serra, mas chegamos num trecho muito íngreme e fechado. Até daria para forçar a barra, mas o objetivo não era esse. Precisávamos de um caminho na qual as pessoas pudessem fazer. Como iríamos explicar esse trecho? Bom, decidimos voltar e seguir pelo caminho norma, ou seja o mais longo! Isso nos fez perder tempo. Seguimos descendo e fomos em direção a um colo, numa passagem entre os dois morros. Ali cruzamos uma cerca e descemos em direção a uma casa bem ao fundo vale. Dali, conseguíamos ver o nosso possível trajeto.

Chegamos na casa, na qual haviam algumas pessoas, cumprimentamo-las e pegamos algumas informações. Entramos por uma porteira e iniciamos um longo trecho de subida. Passamos pelas ruínas de uma antiga fazenda e no caminho, comecei a ouvir um barulho de água. Fui em direção a ela e encontramos um córrego com bastante água, o suficiente para nos refrescar. Foi hora de fazer a primeira parada do dia.

Voltamos a caminhada e seguimos por esse caminho bem aberto, até que passamos por umas ruínas. Nesse ponto aconteceu uma coisa curiosa: passando ao lado de uma jaqueira, caiu uma jaca a cerca de 1 metro de distância de mim... Se eu tivesse um pouco mais para o lado... Nem sei! Como a jaca já estava ali no chão, pensei: Vamos comer! Segunda parada do dia!

Seguimos subindo e já tínhamos uma linda vista para Itaboraí. Continuamos subindo até passarmos por uma grande árvore com uma sombra convidativa. Segui subindo lentamente até chegar a uma bifurcação. Para a direita chegamos a uma mirante voltado para São Gonçalo. Dali, conseguíamos ver o caminho na qual deveríamos pegar: uma íngreme subida paralela a uma cerca. No alto, chegaríamos ao Gaia, primeiro objetivo do dia. Voltamos à bifurcação e agora seguimos pelo caminho da esquerda e iniciamos a subida. No meio dela, havia um caminho em diagonal para a direita, na qual pegamos. Me arrependi de não ter ido ao cume onde há a divisa dos três municípios: Maricá, Itaboraí e São Gonçalo... O calor estava forte e optamos por não ir.

No alto, já com uma sombra, fizemos nossa terceira parada. Uma pausa um pouco mais longa, onde aproveitamos para lanchar. Adentramos por um caminho bem definido e bem agradável. Caminhávamos agora sobre a densa floresta e já não tínhamos o incomodo do sol. Porém não tínhamos mais nenhuma referencia visual. Mas o caminho bem definido, não deixava dúvida. Descemos por um longo trecho até que chegamos a uma pedra onde estava sendo construída uma antena. No alto da pedra, fizemos nossa quarta parada.

Dali conseguíamos ver novamente o caminho que teríamos que percorrer. Voltamos para a caminhada e foi difícil achar um caminho a partir daí.  Rodamos e nada. Decidimos voltar para linha de cumeada e encontramos novamente uma cerca. Seguimos com ela a nossa esquerda num trecho bem fechado. Foi um longo caminho e quando achávamos que iríamos encontrar algo aberto: mais capim... Encontramos o que parecia um antiga estradinha em meio ao capinzal, mas não pudemos seguir por muito tempo nela, pois ela segui em uma direção diferente da qual deveríamos ir.

Atravessamos um pequeno vale e logo conseguimos chegar num trecho mais aberto. Seguimos andando, mas fechou novamente. Fomos assim, alternando entre trechos abertos e fechados até que passamos por outra antena. A partir daí, tudo melhorou. Um alívio! Percebi que havia passado motos por ali. Isso de certa forma facilitou nosso trabalho em um trecho mais adiante.

A partir daí foi andar... Chegamos a um morrote e já dava para ver o Condomínio no final trilha. Havia mais um morro e já estaríamos na trifurcação da Serra do Calaboca. Caminhamos os últimos metros até entrarmos de vez na reta final. Daí foi seguir até o carro. Ainda paramos para um refrigerante, antes de seguir para casa.


Ao final da jornada, foram cerca de 18 km de caminhada num calor forte, em quase 8 horas de caminhada. Para quem fazia contas para começar no lado oposto e terminar a tempo de pegar o ônibus das 12:00, tivemos sorte em começar por Cassorotiba! Uma decisão acertada!

Caminho percorrido:











terça-feira, 15 de novembro de 2016

Livros que ando lendo: A Primeira Viagem ao Redor do Mundo

Por Leandro do Carmo



Título: A Primeira Viagem ao Redor do Mundo
Autor: Antônio Pigafetta

Sinopse: é considerado pelo escritor Gabriel García Márquez como um dos livros mais importantes da sua vida. Em agosto de 1519, o navegador português Fernão de Magalhães içou âncoras do porto de Sevilha, a serviço da Coroa espanhola. Tinha início a primeira viagem ao redor do mundo, que descobriria novas rotas de navegação e alteraria todos os mapas da Terra existentes até então.  Ele comandava cinco navios e 237 homens. Embarcado como representante da corte de Roma na expedição espanhola, Antonio Pigafetta (1491? ¿ 1534), marinheiro toscano da cidade de Vicenza, sobreviveu à terrível viagem e celebrizou-se por ter sido o cronista da grande aventura. De Sevilha cruzaram aquele que seria posteriormente batizado de Estreito de Magalhães, descobriram o maior oceano da Terra (o Pacífico), passaram pela Ásia onde Magalhães foi tragicamente morto por nativos filipinos, contornaram a África e então regressaram à Espanha, em setembro de 1522. A armada havia sido reduzida a um só navio, o Victoria, e dezoito homens famintos, entre eles Pigafetta. O relato da viagem por ele escrito foi publicado em Veneza, em 1536 (dois anos após sua morte), e obteve sucesso instantâneo ao contar com vigor e precisão as privações e desventuras nas quais se viu envolvida uma das mais importantes expedições de descobrimento da história.

Comentário Pessoal: Uma verdadeira epopéia. Seria perfeito se não fossem as atrocidades cometidas. Coisas da época... Eles chegaram a lugares jamais visitados pelos europeus. Tinham poucas informações mais tinham muita coragem. Um livro com muitos detalhes sobre como eram a vida e os costumes dos povos na qual foram encontrando. Dá para termos um boa ideia de como eram as coisas naquela época. É claro que alguns equívocos foram cometidos, mas totalmente aceitáveis. Boa leitura!

Guia de Trilhas de Niterói e Maricá: 25º dia, atravessando a Serra do Calaboca

Por Leandro do Carmo

Serra do Calaboca
Data: 06/03/2016

Participantes: Leandro do Carmo, Leonardo Carmo, André Pontes e Alexandre Rockert

Hoje foi dia de conhecer a Serra do Calaboca. Começamos a caminhada em Santa Paula e seguimos subindo. Estava quente. O caminho segue bem marcado e limpo. Aproveitamos para dar um pulo nas Grutas do Spar. No caminho encontramos gente de bike, moto e caminhando. As trilhas cada vez mais frequentadas!!! Um bom sinal...

Após chegar ao cume, seguimos descendo por uma área aberta e com muito capim, até que entramos novamente na mata. Passamos por alguns pontos bem erodidos e com grandes valas, um perigo. No final, que fica ao lado do galpão da Itaipava, atravessamos a pista e fomos lanchar na padaria Via 106, um ótimo atendimento, recomendo!

Seguem algumas fotos desse dia! Até a próxima.

Pedra de Inoã ao fundo

André no caminho

Alexandre Rockert e André Pontes na entrada para as Grutas do Spar

Visual

Alexandre Rockert e Leonardo Carmo

Vista de parte do caminho

Final da caminhada!




sábado, 12 de novembro de 2016

Subindo o Monte Roraima

Por Leandro do Carmo

Nossa Logística:

Expedição 8 dias

Parte aérea: Voo - Rio x Boa Vista

Parte terrestre: Boa Vista (RR) x Santa Elena de Uiarén (Venezuela) - Aproximadamente 235 km - Táxi (Dá para ir de ônibus até Pacaraima e de lá seguir até alguma pousada em Santa Elena)
Santa Elena x Paraitepuy - Aproximadamente 90 km  - Carro 4x4 (Responsabilidade do guia)

Optamos por contratar um guia, não uma empresa.

Vantagens: Mais barato
Desvantagens: Difícil de fazer contato e acertar os detalhes

Estava incluso: Guia, barracas, alimentação durante todos os dias, transporte Santa Elena x Paraitepuy x Santa Elena.

Algums dicas:
Moeda: Bolívar Venezuelano;
Câmbio: 1 Real = 320 - 330 Bolivares (em julho/2016);
A maioria dos lugares aceitam Real, não há necessidade de comprar Bolívar;
As coisas na Venezuela são bem baratas.

Contato do Guia: Juan Pablo - https://www.facebook.com/juanpablo.perez.336

Dados sobre o Parque Nacional Canaima (Venezuela)
Dados sobre o Parque Nacional do Monte Roraima (Brasil)

Downloads:
.KML - .GPX - Mapa


Relato

1° Dia, 25/07/2016: Aldeia Paraitepuy x Acampamento Kukenan

Distância: 16,2 km
Tempo Total: 05h 54min

Acordamos cedo e saímos para tomar um café em uma padaria em Santa Elena. Era o dia mais esperado... Fui bem rápido, não queria que nada desse errado. Nem estava com fome, de tanta expectativa. O horário marcado com o Juan, foi as 8 da manhã e as 08h 01min, já estava achando que ele estava atrasado... O coração bateu forte quando vi as Toyotas Land Cruiser entrando pelo portão da pousada... Agora sim a expedição estava começando!

Arrumamos as coisas e quem foi contratar o carregador, acertou ali na hora. Colocamos nossas mochilas e nos ajeitamos. Enfim pegamos a estrada. De Santa Elena até a Aldeia Paraitepui, foram aproximadamente 2 horas entre asfalto e estrada de chão, só com 4x4! Na aldeia, descarregamos tudo e fomos assinar o livro de presença no posto do InParques, entidade venezuelana que administra o sistemas de parques e monumentos nacionais. Para que não sabe, o lado venezuelano do Monte Roraima está dentro do Parque Canaima, segundo maior parque nacional venezuelano.



Depois dos trâmites legais, colocamos nossas mochilas nas costas e começamos a andar. Para mim omprimeiro dia é sempre o mais difícil... O corpo ainda não sabe o que vem pela frente e as vezes demora um pouco a se adaptar... O dia estava quente e nublado. Passamos por algumas casas bem humildes da aldeia e seguimos num sobe e desce. Se não fosse a grande expectativa de estar ali, te digo que seria uma caminhada meio sem graça... Isso porque o tempo não estava ajudando e o Monte Roraima e o Kukenan estavam encobertos e só saberia que ele estava ali na nossa frente, alguns dias depois...

Fomos num bate papo bem descontraído e sempre num passo firme e constante. Cruzamos alguns córregos e fiquei impressionado com a falta de vegetação na região. Havia árvores de maior porte em alguns pontos dos córregos e ao redor somente vegetação rasteira. Mas seguimos andando e de alguns pontos dava para ver o caminho que ainda tínhamos a percorrer. Numa subida, avistamos novamente algum sinal de civilização. Era o acampamento do Rio Ték. Havia algumas barracas também. Fizemos ali nossa última parada antes do ponto final.

Em poucos minutos, fomos literalmente atacados por uns mosquitos conhecidos como Puri Puri. Eles são pequenos e quando picam, devem expelir algum anti coagulante que deixa o sangue escorrendo... Nem deu para curtir muito... Seguimos andando. Um pouco mais abaixo, atravessamos o Rio Ték, primeira grande aventura do dia. O rio não estava muito cheio e o atravessei  com a água na altura da coxa. Do outro lado da margem,segui descalço,seriam aproximadamente 2 km até o ponto final do dia. Em seguida, passamos pela Igreja de Santa Maria e mais a frente pude contemplar o Rio Kukenan e o Kamaiwa, um de água quente e o outro de água fria, respectivamente.

Desci e nos preparamos para atravessá-lo. Aqui a brincadeira era mais séria... A correnteza é mais
forte e todo o cuidado é pouco. Atravessamos bem lentamente, não queria ter minha mochila toda molhada logo no primeiro dia. Com cuidado, cumprimos o último desafio do dia. Foi diferente chegar ao ponto de acampamento e encontrar tudo arrumado e logo em seguida vir um lanche. Nunca pensei que fosse ser tão bem servido! Aproveitei para tomar um bom banho e descansamos o final do dia. À noite, lanchamos e aproveitamos para jogar cartas para passar o tempo...


2° Dia, 26/07/2016: Acampamento Kukenan x Acampamento Base
Distância: 8,35 km
Tempo Total: 4h 55min

A noite foi bastante chuvosa. Acordamos ainda com um tempo meio estranho, mas logo foi firmando um pouco. Nesse primeiro café da manhã, comemos arepa, uma espécie de pão feito com farinha de milho. Após esse delicioso café, arrumamos nossas coisas e partimos rumo ao acampamento base por volta das 9 horas. A caminhada começa relativamente plana, mas depois de alguns quilômetros começa a subida. Seguimos subindo e o tempo fechou de vez, fazendo desabar uma forte chuva. No meio do caminho o Juan, milagrosamente sacou um melão de dentro da mochila, isso mesmo, um melão, cortando em fatias e dando a quem estava por perto. Nessa hora ele deu uma ajuda a minha mãe, levando a mochila dela por um longo trecho.

Depois da chuva o tempo parecia que iria firmar, mas logo veio mais água e o frio aumentou consideravelmente. Foi um alívio chegar no local do acampamento. Mas dessa vez, devido a forte chuva que caía, as barracas não estavam montadas. Já estava ficando mau acostumado... Todos estavam esperando embaixo de uma lona estendida sob uma armação de madeira. Foi só o chuva dar uma trégua, para que as barracas fossem armadas. Foi o único dia na qual não tomei banho. A caminhada havia me desgastado muito.

Depois de algum tempo, a chuva cessou e o tempo abriu. O Monte finalmente apareceu e foi aí que pude ter a noção exata da magnitude do local. Chega dar arrepio só de lembrar... Acabei esquecendo do cansaço da subida e fui hipnotizado pelas belíssimas cachoeiras que se formavam em vários pontos do imenso paredão de pedra, em especial a bela Kukenan. No local haviam muitos pássaros que ficavam rodeando nossas barracas e cercando a cabana onde a comida estava sendo preparada.

Comemos pipoca com chocolate quente antes da janta. Aproveitei para ir dormir um pouco mais cedo. O dia seguinte apesar de mais curto, seria o dia com a subida mais pesada, passaríamos por trechos bem delicados.

3° Dia 27/07/2016: Acampamento Base x Hotel Principal
Distância: 5,38 km
Tempo Total: 6h 15min

Choveu a noite, mas o dia amanheceu razoavelmente bom. A medida que a hora avançava, o tempo foi abrindo. Uma surpresa: um belo arco íris se formou em frente ao Monte Kukenán, um dos grandes momentos da expedição. Hoje seria um dia mais pesado, pois além da forte subida, levaria mais algumas coisas da mochila da minha mãe. Aprontamos tudo, tomamos um reforçado café da manhã e tocamos pra cima!

Cruzamos uma queda d’água próximo ao acampamento e já começamos uma forte subida. O trecho é bem íngreme e o piso é de uma espécie de barro bem compactado. A sorte é que não estava chovendo. Segui subindo e percebi o quanto estava enganado com a distância. Talvez pela grandeza do local, mas tinha a nítida impressão de que não era tão longo assim... Mais a frente tive a oportunidade de tocar o paredão do Monte Roraima pela primeira vez. Uma emoção! Pensei em como seria chegar ao topo... Mas deixei as hipóteses de lado e me concentrei no que tinha realmente no momento: mais subida!

Segui em frente e num belo mirante já era possível ver o acampamento base bem ao fundo. A parede do Monte rasgava o céu numa impressionante e vertiginosa vista. As nuvens começaram a aumentar, talvez o prenúncio de mais chuva. Por sorte, avaliei errado e a chuva não chegou. Parei para dar uma descansada em um belo mirante. De lá pude observar a Gran Sabana e o famoso “Passo de Las Lágrimas”, uma belíssima passagem por baixo de uma cachoeira, que pode molhar bastante caso tenha chovido forte.

Nesse ponto, encontrei os carregadores e fui acompanhando o ritmo deles. Os caras andam forte! Mais uma descida forte e comecei a sentir umas gotas de chuva. Quando ia parar para colocar o poncho, ouvi um dos carregadores falar: “las lágrimas”. Foi a única coisa que entendi daquele espanhol difícil... Mas foi o suficiente para perceber que estava no “Passo de las lágrimas”. Quando olhei para o alto, vi a enorme quantidade de gotas caindo e imaginei se tivesse chovido... Subimos um trecho bem delicado, com muitas pedras soltas e bem molhadas.

Mais acima, aproveitei que os carregadores pararam e aproveitei para descansar também. Seguimos subindo e chegamos ao local de entrada do Monte Roraima. Os carregadores seguiram andando e eu optei por ficar ali esperando o resto do pessoal. Ali, tive a certeza de que sou um cara de sorte! Quantas pessoas tem a oportunidade de estar aqui? O sol apareceu e pude me aquecer um pouco. Aproveitei para andar em volta e procurei alguns pontos para fotografar. Fiz um lanche rápido até que comecei a ouvir as primeiras vozes. Aos poucos todos foram chegando extasiados pela fantástica paisagem.

Depois de todos reunidos, seguimos para o nosso ponto de acampamento, conhecido como Hotel Principal. Chegamos e as barracas já estavam contadas. O local é abrigado, mas o piso era um pouco irregular. Mas isso era o que menos importava. Dali podia ver o cume do Monte Roraima. Começou a bater aquela vontade de chegar lá o mais rápido possível. Depois de uma lanche, não resisti e segui para lá. O grupo foi em direção a Jacuzzi e eu, para o cume. Nem queria saber de mais nada, queria mesmo era chegar ao cume do Monte Roraima, uma das minhas metas da expedição! Fui contornando as grandes poças e caminhos de água, até que comecei a subir. Em poucos minutos já estava no cume. A respiração estava ofegante, acho que por eu ter subido rápido. O coração batia mais forte, talvez pela emoção de estar ali...  Talvez não... Isso era uma certeza! Por alguns instantes pude, sozinho, contemplar a beleza e grandiosidade do local.

Por um instante, as cortinas de um palco para a imensidão se abriram... Nesse momento pude observar a Gran Sabana, a Aldeia Paraitepuy e todo o caminho que começamos a percorrer a três dias atrás. Parecia um desenho de uma linha marrom em meio ao verde da rasteira vegetação. Fiz algumas fotos e voltei para o acampamento. Mas antes, aproveitei uma das grandes poças de água corrente para tomar um banho... Muito gelado, diga-se de passagem... Aí foi esperar o dia terminar... Muita conversa boa até que fomos dormir, esperando ansioso o próximo desafio da expedição!

4° Dia, 28/07/2016: Hotel Principal x Hotel Coati
Distância: 13 km
Tempo Total: 06h 24min

Acordamos com o tempo muito fechado, não dava nem para ver o cume do Roraima. Acordar assim, até desanima, mas como o tempo lá em cima muda rapidamente, tinha esperança de que melhoraria. Era bem cedo, o que deu tempo para tomar um café da manhã e arrumar a mochila com bastante calma. Enquanto isso, o tempo dava sinais de que abriria. Todos pronto, foi hora de colocar as mochilas nas costas e começar a caminhada. O dia hoje seria longo, andaríamos cerca de 13 km até o “Hotel Coati”, em lado brasileiro, passando pela tríplice fronteira.

O tempo foi melhorando e logo saímos para a caminhada. O caminho fica bem marcado por cima das pedras, uma espécie de linha branca de tanto se andar. Seguimos por entre belas formações rochosas, atravessamos córregos, pegamos sol, chuva, frio, calor, tudo isso em apenas algumas horas...

Entramos num trecho com algumas passagens bem bonitas, até que chegamos à Tríplice Fronteira. Para mim, mais um objetivo cumprido na expedição! Nesse ponto, podíamos estar em solo venezuelano, brasileiro e guiano! O Monte Roraima faz fronteira entre esses três países, sendo o lado venezuelano com 85%, o brasileiro com 5% e o guiano, com 10%. Tiramos várias fotos e seguimos caminhando.

Mais a frente, me deparei com um impressionante buraco em meio a uma depressão, havíamos chegado ao “El Fosso”. Me surpreendi com o local! Havia um rio que corria e desembocava dentro desse belo e simétrico buraco, parecia que havia sido feito a mão, de tão perfeito que era. Ali, faríamos nosso almoço. Enquanto descansávamos, aproveitamos para ir dentro do “El Fosso”. Há uma entrada por trás das pedras onde ficamos, porém é preciso fazer uma passagem bem delicada, o que deixou alguns de fora dessa exploração. Começamos a descer e a chuva começou a cair fraca, mas como estávamos dentro de uma gruta, fomos seguindo. A água estava muito gelada e para chegar ao meio do buraco, foi preciso molhar um pouco a calça. Enquanto andava, o chuva caiu forte. Fui até a parte abrigada da chuva e esperei o resto da galera chegar. Ali pude contemplar mais um espetáculo da natureza!!!

Na volta, tivemos que esperar por alguns minutos a chuva passar. Estava tanto frio que os minutos pareciam horas... Já de volta a superfície, almoçamos e seguimos caminhando até o nosso destino. Passamos por labirinto até que chegamos num grande lajeado. O tempo fechou novamente e baixou uma forte serração. Seguimos e passamos por uma imensa fenda, onde o som assustador da água correndo ao fundo, dava a impressão de que seria sugado... ainda mais passando por cima de uma pontezinha de madeira, amarrada com arame...

Mais alguns minutos caminhando e chegamos ao “Hotel Coati”, uma espécie de caverna, onde abrigamos nossas barracas. Um belo e aconchegante local de acampamento. Aproveitei uma cachoeira formada pela água da chuva, bem na entrada do “Hotel” para tomar um banho. Seco e com uma roupa bem quente, foi fácil passar o tempo! Continuamos nossa conversa e ouvimos grandes histórias do nosso mestre e guia Juan, onde pudemos conhecer um pouco sobre a cultura local. Ainda comemoramos o aniversário do Pulga, cantando todo o tipo de música de parabéns que conhecíamos!

5° Dia, 29/07/2016: Hotel Coati x Lago Gladys x Hotel Coati
Distância: 10 km
Tempo Total: 07h

Tentamos ver o sol nascendo, mas o tempo não ajudou. Amanheceu com uma forte cerração. Como estávamos bem abrigados, nem percebi se fora uma noite chuvosa. Fora da barraca a temperatura bateu a mínima de 10,2°C. Enquanto aguardávamos o tempo abrir, tomamos um delicioso café da manhã e aproveitei para dar uma arrumada nas minhas coisas. Passaríamos mais uma noite por aqui. Assim que o tempo foi melhorando, saímos para nossa caminhada.

Hoje seria diferente, não teríamos o peso da mochila. Seguiríamos até o Lago Gladys. A caminhada dispensa comentários... Além da beleza do local, cruzamos alguns rios e em especial o Rio Cotingo. Sem mochila pesada, tudo fica mais fácil. No caminho, cruzamos com uma imensa aranha, parecida com a nossa caranguejeira. Seguimos andando e logo chegamos na borda de um dos precipícios. Pena que o tempo estava fechando e só pude ver um pouco da mata que estava bem ao fundo. Dali, já dava para ter uma noção da altura.

Andamos por uma área mais plana e depois de uma pequena elevação, pudemos ver de longe uma grande cratera, era o Lago Gladys. Chegamos nela e vi a sua beleza... Sentado numa de sua borda pude contemplar mais um espetáculo da natureza! Perguntei ao nosso guia José se podia entrar e ele me disse que o Lago é um local sagrado e se alguém entrar o monte se enfurece e faz cair uma forte chuva... Bom, não seria eu quem desrespeitaria...

Depois que todos chegaram e cansaram de bater fotos, seguimos o caminho de volta. Começou uma forte chuva, como já estava acostumado com a mudança rápida do tempo, paramos um pouco perto da borda do precipício, esperando que o tempo abrisse. E não é que fomos agraciados novamente pela mãe natureza! O tempo abriu e pudemos ter uma excelente visão . Batemos fotos de tudo quanto foi maneira. Ninguém queria perder um ângulo sequer!

Depois de vários cliques, iniciamos nosso caminho de volta. Uma surpresa no meio do caminho: nosso almoço nos esperava! Isso mesmo que vocês leram, ALMOÇO! O Juan mandou preparar nosso almoço no meio da trilha. Sem dúvidas o melhor almoço de minha vida!!!!!! Pensei: “Vou ficar mal acostumado”... Satisfeito, segui o caminho de volta. No hotel, aproveitei a mesma cachoeira formada pela chuva do dia e tomei um banho gelado.

O tempo abriu, aproveitamos para pegar um sol e colocar algumas de nossas roupas para secar. Fui dar uma volta pelo local e fui seguindo alguns totens. Em um determinado ponto, encontrei o José, um dos guias, que me indicou um mirante, de frente para um monte conhecido como Roraiminha. Já está até parecendo um clichê, mas não encontrei outra palavra diferente do fantástico para descrever o local. Garanti algumas fotos e voltei até o acampamento.

A noite foi ótima. Muita conversa na nossa varanda com vista panorâmica. No dia seguinte, retornaríamos para o Hotel Principal, passando pelo Vale dos Cristais.

6° Dia, 30/07/2016: Hotel Coati x Hotel Sucre (Vale dos Cristais)
Distância: 12 km
Tempo Total: 06h

Acordei antes das 5 da manhã na esperança de ver o sol nascendo. Mas como os dias anteriores sempre amanhecia fechado, nem tinha muita esperança. Quando ouvi o Juan falando “E aí Leandro, vamos?”, saí rapidamente do saco de dormir e seguimos para o mirante. Como já havia feito o caminho no dia anterior, segui à frente achando que seria fácil... Puro engano... Tive que ir e voltar algumas vezes para acertar o caminho. O céu estava estrelado e bem aberto. Quando chegamos no mirante, tive a noção exata de onde estávamos. A vista era fantástica... As cores que se formavam no horizonte faziam um contraste com branco da nuvens e negro da noite, um espetáculo.

Numa manhã mágica, presenciei um dos mais emocionantes nascer do sol que já havia visto. E quando tudo parecia perfeito, apareceu o Ramón com uma jarra de café! Quase chorei!!!!! Tomar café vendo um nascer do sol desses... Coisa para poucos! Nem preciso falar que fizemos várias fotos. Já era hora de voltarmos e levantar acampamento. E assim fizemos. No Hotel, reforçamos nosso café da manhã, arrumamos nossas mochilas e seguimos caminhando de volta até quase chegar à Tríplice Fronteira novamente.

Pegamos uma saída para a esquerda e entramos no Vale dos Cristais. Como o próprio nome diz, é um local com grande concentração de cristais de quartzo, alguns tão perfeitos que parecem até vidro de tão transparentes... O local já teve mais cristais, a retirada foi grande no passado. Hoje em dia o controle é muito mais rigoroso pelo InParques, ao final da caminhada, em Paraitepui, é feita uma revista nas mochilas e a multa é forte, se encontram alguma coisa na mochila...

Caminhamos no fundo do vale até que conseguimos ver o marco da Tríplice Fronteira bem lá trás. Voltamos por um caminho diferente do que fizemos na ida. Mais a frente, os carregadores apareceram novamente fui seguindo-os até que chegamos perto do Hotel Principal. Lá vimos que ele estava ocupado e seguimos para o Hotel Sucre. No Sucre, as barracas não ficam tão bem acomodadas, mas ficar abrigado já é um luxo. Deixei as coisas na barraca e fui direto para um banho. O dia estava bastante agradável no momento. Aproveitei para dar um subida em uns mirantes próximos.

Comemos e descansamos bem, o dia seguinte seria longo. Desceríamos direto e pernoitaríamos no Acampamento do Rio Ték, pulando o Acampamento Kukenán.

7° Dia, 31/07/2016: Hotel Sucre x Acampamento Ték
Distância: 15,4 km
Tempo Total: 07h

Acordamos e saímos para caminhada um pouco mais cedo que os dias anteriores, mas não sem antes tomar o reforçado café da manhã. Deixamos as mochilas no caminho e passamos no cume do Monte Roraima. Posamos para a foto e seguimos descendo até o ponto onde termina a rampa, subida após o “Passo de Las Lágrimas”. Ali, me despedi do Monte, tendo a certeza de que cumpri com meu objetivo... Mas a expedição ainda não havia acabado. Faltava o trecho mais delicado, ainda mais na decida...

Seguimos pelo caminho de pedras com muito cuidado. E no Passo de Las Lágrimas, com pouca água, foi tranquilo descer. Dali foi mais uma subida forte e na descida a chuva chegou com força. O caminho se transformou num rio. Caminhávamos com os pés dentro d’água. Só pensava na descida próxima do acampamento base, trecho bem íngreme e escorregadio. Mas com cuidado, vencemos o trecho e cruzamos o rio que antecede o acampamento base. Lá pudemos descansar e esperar o almoço que estava sendo feito. Foi aí que me dei conta de que o sonho estava acabando... Estava quase na hora de acordar... Havia saído do topo do Monte há algumas horas e já estava batendo uma saudade absurda...

Depois do belo almoço, seguimos descendo. Esse foi um trecho duro na subida, mas agora tudo estava mais fácil. Demorou, mas chegamos no Acampamento Kukenán. Ali aguardamos a chegada do resto do pessoal para podermos atravessar o rio. Dessa vez, não ficaríamos ali, pois se chovesse muito, o nível do rio subiria, podendo até atrasar nossa partida no dia seguinte. Por isso, nosso último acampamento seria o do Rio Ték, assim atravessaríamos os rios, ficando livres de qualquer imprevisto. Depois que todos foram chegando, iniciamos a travessia dos rios. Assim como no primeiro dia, fui com bastante cuidado. Já na outra margem, o Juan atravessou as mochilas com uma canoa e alguns aproveitaram a carona. Dali seguimos para Igreja de Santa Maria. Ali tive a certeza de como acertamos na escolha do guia. O Juan recolheu algumas sacolas de lixo que foram deixadas próximo a uma placa, se fosse outro... depois fomos em direção ao acampamento, atravessando o Rio Ték.

Lá encontramos alguns grupos que estavam iniciando suas caminhadas e ficamos conversando e contando histórias num tom bem descontraído. Olhando ali, percebi o quanto é bom estar com um grupo fechado, só de amigos. A viagem segue bem melhor...

Nossa última noite... Nos reunimos para o jantar e a emoção foi grande. Num tom de despedida o nosso Guia Juan juntou toda a sua equipe e cada um pode agradecer os 7 dias que passamos juntos. Não posso falar pelos outros, mas eu vivi intensamente cada momento que passamos e sei quanto é difícil organizar esse tipo de atividade... E o cara conseguiu, num lugar inóspito, nos proporcionar grandes momentos!

No apagar das lanternas, nos recolhemos em nossas barracas para nossa última noite, com o Monte Roraima a nossa frente...

8° Dia, 01/08/2016: Acampamento Ték x Aldeia Paraitepuy
Distância: 13,9 km
Tempo Total: 4h 37min

Tirando o dia que acordamos para ver o sol nascendo, esse foi o dia na qual acordamos mais cedo. Nossa meta era chegar por volta das 11 horas, pois ainda iríamos almoçar antes de irmos de volta para Santa Elena. Mas antes de sair, batemos uma foto com todos. Uma foto para entrar para história! Arrumamos nossas mochilas e fomos saindo, um de cada vez... Depois de tudo que passamos, esse foi um caminho onde fui lembrando de cada dia, cada subida, cada risada... enfim, cada momento...

Depois de algumas horas chegamos a Aldeia Paraitepuy e passamos pela revista do pessoal do InParques. Foi um momento de alegria e tristeza quando os jipes chegaram... E o Juan com mais uma surpresa! Cerveja e Coca Cola gelada para todos! Seguimos para o delicioso almoço de despedida.

Quando estamos sozinhos, o sucesso depende somente da gente. Em grupo, o sucesso não é mais individual, ele vai depender do sucesso de todos. E posso te garantir que vencemos! Monte Roraima 2016... Pra sempre...