terça-feira, 10 de setembro de 2013

Relato da Conquista da Via Amigo É Pra Essas Coisas

Por Leandro do Carmo

Relato dos dois dias da conquista da via

Croqui da via

Local: Morro das Andorinhas - Setor Casa de Pedra

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Primeira Investida
Data: 28/07/2013

Participantes: Leandro do Carmo, Ary Carlos e Guilherme Belém

Depois de um feriado de chuva e frio, conseguir escalar no final de semana seria uma tarefa difícil. Havia chovido bastante e tudo estava muito molhado. Já estava até desanimado, mas no sábado o tempo deu uma firmada e a previsão para o domingo era de tempo bom, pelo menos não choveria. Tive a idéia de começar um projeto que havia pensado há um tempo atrás, lá no Morro das Andorinhas. A parede é bem limpa, seca rápido. Como é um setor verde, já havia comunicado ao PESET, a minha intenção de conquista. Falei com o Ary e com o Guilherme e eles toparam na hora.

Marcamos de sair por volta das oito da manhã. Acordei cedo e fui preparar o equipamento. Não queria esquecer nada, muito menos os grampos! Tomei um café e parti em direção à Itaipú. Nosso ponto de encontro foi na Igreja de São Sebastião. Começamos a agradável trilha até chegar ao setor Casa de Pedra. Lá, demos uma parada para organizar o equipamento e mostrei, mais ou menos a linha que havia pensado. Fomos até a base e decidimos por onde começar. Nos preparamos e comecei a subir. Segui uma leve diagonal para a direita e escolhi um local bem visível para o primeiro grampo, para que não houvesse dúvida quanto ao início da via. Quando saquei a furadeira, cadê a broca? Ficou na mochila! Avisei ao Guilherme e ao Ary do meu esquecimento eles amarraram um saquinho com as brocas. Puxei o saquinho e coloquei o primeiro grampo.

Mais uma diagonal para a direita e mais um grampo. Os lances iniciais são bem tranquilos, sem dificuldade. Muitas agarras ainda por quebrar. Segui mais em diagonal e avistei um pequeno platô e resolvi colocar o terceiro grampo. Mais a direita, dava para ver uma parte mais limpa e vertical da parede, mas a corda não chegava lá, resolvi então que faria ali a P1 da via. Montei a parada e o Guilherme de tênis, subiu, seguido pelo Ary.

Na parada, passei a vez para o  Ary, que conquistou a segunda enfiada, resumindo assim:

“Fiz a segunda parte da via depois que o Leandro colocou os 3 primeiros grampos, saí em horizontal até pegar uma linha limpa vertical e mais "emocionante" da via, coloquei o quarto grampo e toquei pra cima, mais ou menos na metade da corda coloquei o quinto grampo, para o caso de alguém querer descer a via de rapel e a corda alcançar a parada onde o Leandro e o Guilherme estavam. O sexto grampo, eu coloquei no meio de um lance mais vertical antes de chegar em uma parte que estava molhada, dali subi mais um pouco e cruzei para a direita da parte molhada e como a corda estava acabando coloquei o sétimo grampo e fiz a parada nele.”

Quando o Ary montou a parada, foi minha vez de subir. O Ary tinha razão, por enquanto a melhor parte via! Depois da horizontal, segue reto para cima, com pequenas agarras e muitas ainda por quebrar. Mais acima um lance de aderência bem interessante. Cheguei na parada e o Guilherme veio logo atrás, de tênis, aos trancos e barrancos... Com todos na parada. Era a vez do Guilherme conquistar... Mas ele estava de tênis... Emprestei minha sapatilha para ele. - Amigo é para essas coisas!!! - falamos na hora. Mas não seria assim tão mole! Ele seguiria pela parte mais suja e molhada da via. Tinha ficado com essa parte “boa”, mas amigo, também é para essas coisas!!!! Além disso, só tínhamos 4 grampos para terminar a via! Tinha que dar um jeito! Amigo é ... Ninguém estava a fim de voltar rapelando e subir a trilha de volta.

Assim foi o relato da conquista da terceira enfiada, feita pelo Guilherme:

“Mais uma via e mais uma conquista. A minha primeira com tecnologia! Pois o paredão que conquistara anteriormente levou 2 dias para bater 4 grampos! Furadeira de última geração super leve e fura muito rápido, cruzada com uma fita no peito e toca para cima. Antes disso estava ansioso para mostrar a minha sapatilha ao Leandro, TOP ( via de 7° vira 5° hehehe), trilha de 30 min e chegamos na praia. Base da bela linha no Morro das Andorinhas, em 1min Leandro equipadaço. Perguntei: - Nem preciso perguntar se quer guiar o primeiro lance? Não é? Leandro riu, e logo depois armei a segurança dele. Cadê a minha sapatilha? P... ferrou! Logo me antecipei. - Participo de tênis mesmo (com cara de choro). Ary riu e Leandro seguiu.

Toma- lhe diagonal, escalei com muita dificuldade e claro com a corda super justa. Óbvio que escorreguei e caí várias vezes, o que foi tema de divertimento dos outros dois guias (vídeo cassetadas). A segunda enfiada guiada por Ary então... escorreguei muito. Na terceira enfiada, lembrando que cada esticada tinha aproximadamente 55m, faltava mais uma ou duas enfiadas, e tínhamos só 4 grampos. Nosso amigo Leandro manda a letra: - E aí Reginaldo? Vai? Meu sobrenome é Reginaldo e é engraçado, sei disso! Respondi: - Agora! Kmon! Subi cheio de gana pois agora sim a pedra estava firme, porém...ah porém, deveria conquistar super exposto, lembrei dos 4 grampos no boudrier. Aí o coração acelerou! O primeiro foi bem perto da parada, escolha minha, para que o escalador não perdesse o grampo de vista. Ary e Leandro gritavam: sobe mais... E toma diagonal.

No segundo grampo, procurei me distanciar mais, porém ao passar no meio de muitas bromélias, estava molhado. Lance tenso demais. Escorreguei feio e caí de cara na pedra, ralei o braço, mas não desci nenhum centímetro. A tensão era tanta, que fiquei pendurado por uma mini agarra e bromélias prestes a soltar. Levantei trêmulo e irritado, olhei para trás e só via Leandro na atividade na segurança (rindo muito e esperto, o que nada adiantaria pois a exposição era tanta que acho que cairia na água rsrs). Ary alertou que eu deveria entrar bromélias e mato a dentro. Foi o que fiz, cansado de diagonal e só 2 grampos toquei verticalmente.

Achei um platô e coloquei o penúltimo grampo. Faltava uns 10m para o cume, e depois desse grampo o lance mais sinistro da via, um provável VIsup niteroiense, 7a do Rio. Escalei, ensaiei, desescalei e nada, vocês não estão entendendo, não tinha agarra! Cansado, ralado e por causa das bromélias molhado (sapatilha do Leandro também). Gritei para o Ary: - Tá f...! Ele disse: - Se prende aí que vou subir. O cara subiu, e comentou que tava difícil a via. Eu disse: Ah malandro, falou "para carai"! Quero ver subir esse lance aqui! Tensooo! Ary: - Deixa comigo, subo o Leandro (de tênis), depois venço isso aê! Esse foi o lance mais engraçado, ver o do Carmo sambando na rocha e chegou cansado na parada. Leandro: P... amigo é pra essas coisas. Feito o nome da via. Dito e feito, Ary com tecnique boa, venceu o lance e pôs o último grampo. Fez o cume e segurança na árvore. Subi, tentando não roubar no lance, venci, roubando! E fiz segurança do Leandro que subiu sambando com o meu tênis. Afinal amigo é para essas coisas!”

Enquanto o Guilherme conquistava, conforme o relato acima, ficamos preocupados se os grampos dariam. A cada parada e barulho de marretada, perguntava para o Ary: Será que vai dar para fazer cume? Tinha uma parte bonita e limpa, parecia bem íngreme, talvez o crux. Tentamos falar com o Guilherme para proteger numa árvore, mas ele não ouviu. Como a corda já estava quase no fim, o Guilherme colocou o 10º grampo e fez a parada ali. Subi por último e de tênis. Um perrengue... Mas cheguei, escorregando, mas cheguei!

Estávamos num platô, em uma parada bem confortável, de frente para um lance bem vertical, de uns 10 a 15 metros, sem agarras e com apenas um grampo para bater. Tinha uma barriga mais acima que não tínhamos idéia do encontraríamos depois. Foi arriscar! Como o Ary já estava pronto, resolveu seguir.

Esse foi o relato do Ary, na conquista da última enfiada:

“No final ainda fiz aquele restinho da via que deve ser um 6ºsup ou VIIa na saída dele e gastei o último grampo na parte mais vertical, depois fiz o resto naquela aderência e faltou colocar o grampo no final da via porque não tínhamos mais grampos para colocar. Tive que dar segurança numa árvore que encontrei no final, já no começo da mata.”

Depois que o Ary e o Guilherme subiram, foi minha vez. Novamente de tênis. Só que agora num lance bem mais difícil. Sem agarra, sem apoio, sem nada, ah! Tinha pelo menos uma coisa: a mochila pesada!!! A solução: fui igual ao Batman!!! Subi rapidinho e cheguei no meio de um capinzal. Pensei na hora: varar esse mato vai ser f.... Votar para rapelar, missão impossível! Não tinha mais como desistir. Guardei o último gole de água, liguei meu GPS natural e seguimos. Mas nem foi muito ruim assim. Só teve mato e arranha gato no começo. Depois ficou um pouco aberto e fácil de caminhar. Seguimos uma diagonal para esquerda, até encontrar a trilha principal, aquela que começa a descer até a enseada. Quem não conhece bem o local, pode complicar um pouco, mas nada que assuste.

Já na trilha, o Guilherme levou as duas cordas, afinal de contas ele está treinando para o Xterra!!! Fomos descendo e pensando no nome para a via. Depois de tantas “ajudas”, resolvemos batizá-la de “Amigo é pra essas coisas”.


Segunda Investida – 10/08/2013

Participantes: Leandro do Carmo, Leonardo Carmo, Ary Carlos e Marcos Leonardo.

Depois de termos conquistado a via, faltava alguns ajustes: intermediar alguns lances, duplicar as paradas e achar o melhor caminho para voltar. Era uma boa missão. Afinal de contas repetir a via inteira guiando, seria um grande prazer. Dessa vez, o Guilherme não pôde ir, já tinha um compromisso. Eu e o Ary convidamos o Marcos e o Leonardo para nos acompanhar. Nos encontramos na entrada da trilha e seguimos até ao setor Casa de Pedra.

Na base, nos preparamos e olhei para o primeiro grampo e pensei: “Por que eu coloquei alto???” Mas não tinha jeito, era tocar para cima. O lance inicial é bem tranquilo. Sobe reto e depois segue numa diagonal até a primeira parada. Lá, dupliquei a parada e o Leonardo subiu. Veio rápido e assim que ele chegou, já me preparei para a segunda enfiada. Mais uma diagonal para a direita e cheguei o grampo que antecede um lance mais vertical. Um 3º, com algumas agarras quebrando, já para esquentar! Mais um grampo costurado e fui seguindo para cima. Subi e subi... Quando olhei o próximo grampo, bem acima, vi que já tinha subido bastante. Foi ficando difícil e uma queda ali, não seria nada agradável! Subi mais um pouco e decidi colocar um grampo. O lance estava muito exposto, um E3. Desescalei um pouco, meio no perrengue, quase escorregando e o bati um grampo. Deu um pouco mais de confiança e segui. Um 4sup na aderência, com aquelas pedrinhas que fazem escorregar... Foi prender a respiração e tocar pra cima.

Costurei mais um grampo e toquei numa diagonal para a direita. Cheguei na parada, a dupliquei e avisei ao Leonardo para subir. Essas três enfiadas já estavam completas! A mochila pesada já começava a incomodar. O calor estava forte e o sol não dava trégua! Lá de cima víamos a galera de caiaque e stand up curtindo um mar bem calmo e com águas claras... Pensei num mergulho... Mas a essa altura.... Só restava um mergulho no meio do mato!

Um minutinho de descanso e segui novamente. Essa é a parte mais suja da via. Além da sujeira, tem algumas bromélias que dificultam a visualização dos grampos, que por sinal são apenas 2 antes da parada. Para não perdê-los de vista, basta seguir numa diagonal para a direita, se guiando por um arbusto bem longe, abaixo de um platô, não tem erro! E assim fui escalando. Costurei o primeiro grampo, o segundo e tome diagonal. Um lance um pouco exposto, mas bem tranquilo, até chegar ao platô onde temos a terceira parada. Lá, também foi duplicada. Agora, esperaria o Ary subir, para que agente pensasse como intermediar o próximo lance, pois era o crux da via.

Com todos reunidos numa parada bem confortável, com exceção do sol que já incomodava, comentei com o Ary o motivo pelo qual coloquei um grampo antes do lance em aderência, ele concordou que estava exposto demais e lembrou de como foi para conquistar o lance... Decidi ir pouco mais para o lado direito para tentar um variante. Até fiz o lance, mas decidimos não grampear outro caminho. Resolvemos bater o grampo um pouco mais acima da parada, assim daria para fazer em artificial, caso não alguém não conseguisse fazer em livre.

A saída é bem técnica, poucas agarras de mão e poucas para pé. Talvez um VII. Dali, seguimos para cima até o próximo grampo, num platôzinho. A saída também técnica, mas não tão difícil, apesar de ter menos opção. Uma agarra abaixo do grampo e depois o pé bem na esquerda, completa uma passada em IVsup, seguido de um lance em total aderência, mas razoavelmente tranquilo... Cruzamos um matinho, até chegar a uma pequena laje de pedra onde bati o último grampo, montando a última parada. Estava concluída!!! Via Amigo é pra essas coisas, que graduamos em 3º VII(A0) E2 D1 175 m. Uma via interessante, com lances em agarras, aderência, lances mais técnicos e um belo visual! Superou minhas expectativas!

Agora faltava a segunda parte... Um vara mato! Como já havíamos feito duas semanas antes, o caminho já estava mais ou menos mentalizado. A saída fica a esquerda do grampo, é só seguir reto até uma pedra, passar por cima dela e seguir um pouco para a esquerda, desviando das pequenas árvores, até chegar numa pequena árvore cheia de espinhos. Dali, foi só pegar uma diagonal para a esquerda, até chegar uma grane calha. Descemos até o meio da calha e seguimos reto para cima, depois para viramos para esquerda e chegamos exatamente onde havíamos saída na primeira vez. Bem tranquilo!

Voltamos pela trilha e paramos para um refrigerante e cerveja numa casa de um morador que abriu, estrategicamente, um ponto de venda!!!


Valeu pessoal e até a próxima!!!!

Até a próxima!!!





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